Não este seu planeta! Deus nos espera outra galáxia!
Ó gênio Platão Vico Nietzsche Bíblia...
Cada um de vós disse partes não Lenda Grande inteira!
Quantos milhões anos-luz
Raça supercivilizada em estado angelical
Vagava pelo espaço em busca astro pra viver.
Ah os que viram cataclisma destruir seu planeta!
Ó irmãos remotos em migração espacial
Vos perdestes dos outros caindo na Terra em formação.
Esquecestes tudo na natureza adversa
Iniciando da barbárie nova evolução.
Um dia voareis fora do planeta onde caístes
Novamente semidivinos, super-homens!
Achareis outro ramo do qual vos desprendestes
Sabereis verdade total!...
Oh se eles nunca chegaram a nenhum porto,
Se perderam no Infinito?!...
Mistério da existência perdurará para sempre...
Deus deu cor a cada raça
Porém as uniu: fez a lágrima incolor.
No início cosmo havia somente respostas.
Antes Criação
Nada estava desperto,
Nada estava dormindo.
História do mundo começaria assim: Há milhões anos quando
selva e fera estavam fora do Homem, não dentro dele...
Mastodontes megatérios dinossauros
Toneladas de músculos, molhes de esqueletos!
Árvores imensas! Copas desmedidas! Troncos colossais!
Em reverência a essa era de gigantes
- Reis guardando imortalidade no fundo pirâmides -
Natureza guardou fundo da terra
Sua epopeia em hieróglifos de fósseis.
Ó florestas pré-históricas milenares!
Não ouves mais gorgeios
Porém inda pousam em teus ramos aves fósseis!
Seiva de teus caules corre ainda!
Tua escuridão profunda reluz no carvão!
Tua imobilidade pétrea faz o mundo andar no petróleo!
Quando, em que instante, em que rotação do globo
Em que dia, noite de que milênio
Teu instinto se fez pensamento?
Talvez quando teus sonhos e pesadelos contínuos
Gerados pelo primeiro medo, primeiro susto, primeira lágrima
Esvaziaram teu cérebro
Fazendo com que tua cabeça mais leve ficasse ereta,
O olhar abrangendo mais frente perdesse suas arcadas pesadas
E sobre cada pegada tua pro futuro
Caíssem teus pelos um a um.
Por que sumiram
Aquelas asas que tapavam astros,
Aquelas pegadas que cavavam cavernas,
Aquelas florestas altíssimas
Onde nuvens pendiam como frutos em seus galhos?
Talvez universo inflado como gás
Murchasse voltando á forma inicial.
E a Terra muito maior que hoje
Encolhesse á dimensão atual.
Monstros pereceram: horizontes ficaram menores,
Céu ficou mais baixo,
Espaços para andarem mais estreitos...
Talvez por isso morte não ocupe espaço.
II
Talvez transplantados por seres intergaláticos
Ou espécies sobreviventes de cataclismos galaxiais
Inadaptados aqui pereceram.
Ah quem te viu toda nervosa em tremores
Maquilando tua face para encarar Infinito!
Cordilheiras, rios, golfos, ilhas, planaltos, continentes...
Que oleiro vos modelou
No torno girante do planeta?
Primeiro dia Criação! Nunca Terra tão bela
Sem ruínas, destruições!
Moça pro Homem moço: nem cãs sobre o pensamento
Nem rugas sobre os sentidos!
Teu sono o mais profundo:
Primeiro dia o mais vivido!
Teu olhar viu mais do dado aos homens numa vida!
Imensidão toda Terra a conquistar!
Unindo visão ao tato subirias cumes montanhas.
Cobririas mar nu com panos: velas.
Plantarias números na terra: geometria.
Mais expansão á luz do sol e á vida
Abrindo primeiro buraco pra plantar.
Horizontes se afastariam usando teus pés.
Criarias outro horizonte sob terra.
Contra neve
Tirarias neve das árvores, animais:
Algodão, lã.
Descobririas fogo preservando a vida
Na viagem dos sentidos.
Vento modelando rocha - sopro mais forte: teu verbo
Gravaria escrita na pedra.
No palco mão poria seus maiores atores: espada, moeda.
Descobririas fusão: estanho e cobre
E fusão mais eterna: ferro e sangue.
Primeiro degrau da escada evolução
de pedra: Machado.
Quantos milênios?... noite gelada redor fogueira
Sem poder comer carne congelada
Imaginaste esquenta-la ao fogo...
Criaste vinho:
Uvas se vingariam dos pés que as pisaram:
Ébrios teriam passos trôpegos...
Guardando forma subconsciente
Do planeta misterioso donde vieste
Observando feixe luz dum buraco de tua caverna
Ou um dia ajoelhando pra beber no rio
Vendo seixos esféricos pela água -
Inventaste roda.
Ao repuxares galho árvore pra colher fruto
Descobriste arco
Mas descoberta maior: primeira morte.
Quando troglodita por segundos
Desviou olhar da caça contemplou paisagem
Primeiro poeta nasceu,
Quando da horda anômade
Se perdeu deserto, floresta
Solidão-espelho: viu a si mesmo -
Primeiro filósofo nasceu.
Cosmo inicial! Formas a nascer! Continentes emergindo!
Segredos perdidos nos milênios!
Saberias mistério das origens!
Criação talvez pra tua felicidade
Te deu por língua somente ais, uivos, gritos!
Ali nunca entrou aurora
Se forjou aurora da espécie.
Suas paredes receberam sombras trêmulas
Dos que se esquentavam ao fogo
E imobilidade do belo nas pinturas.
Lar, fortaleza, escola, cemitério e templo:
Ante rugir monstros e trovões
Na caverna da boca
Nasceu em sussurro primeira oração.
Faraós! Louros! Apogeu!... agora destroços
Brisa invejosa do deserto lança areia
Á face monumentos grandiosos...
Num hipóstilo
Pintura dum cego tocando flauta...
Toca tão baixo -
Somente ouvidos mortos ouvem...
Não viu seu tempo, não vê hoje.
Eternidade, cega pra cada era.
Como podem caber tantas gerações espectadores
Em tão poucas arquibancadas?
Ó único teatro
Que tem coro eterno - o mar -
Onde atores nunca saem de cena?!
Em meus parapeitos ao luar
Não tive olhar sereno dos que contemplam paisagem:
Olhar dos que vigiam inimigos!
Quantos vi morrerem em luta!
Todas batalhas são perdidas...
Infinito necessário!
Nele minha extensão se apaga
Horror cósmico fica em nada!
Ó céu! Teto que não cai sobre tetos a cair!
Quiromante - pressenti todos dramas minha Era
Nas mãos reis, soldados, escravos, cortesãs, avaros!
Os segui até o fim: me enterrei com eles.
Ressuscitada vivo museu.
Triste sobreviver à própria humanidade...
Tenho saudade dos mendigos passados!
Quando seguro este vaso
É como se apertasse mãos do antepassado que o fez.
Ou participasse do brinde feito
Num dia perdido da História...
Mesmo sem o vinho que embriagou seres passados
Nos embriaga de beleza.
Quantos desceram tuas arquibancadas
(como nós hoje)
Lamentando fim do espetáculo!...
Onde buscaram alicerces
Pra suportar tanta grandeza?
Templos foram feitos pelos próprios deuses.
Brisa do deserto sopra sobre ruínas...
Te imagino há milênios!
Sacerdotes em ofertas, grupos conversando
Escravos servindo mulheres belas, nobres em carros...
Ó poder das ruínas!
Os ouço! Os entendo numa língua mortal
Mais saudade que eles
De suas próprias casas, suas próprias vidas!
Minhas águas possuíram tudo!
Pão dos humildes, sangue das batalhas, papiro do saber,
Lágrimas dos que enxugaram rosto nelas...
Mas meu maior tesouro: refleti
Imagem Cleópatra enamorada!
Ninguém penetrou como eu fugacidade das coisas!
Que rio refletiu mais desertos, ruínas às suas margens?!
Homem, tens destino Esfinge:
Ser grande no deserto...
Mundo - pirâmide egípcia -
Túmulo de seus construtores...
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* "Thank you for your letter, and for sending me your wonderful poem about Egypt.
It is greatly appreciated." (Ministry of Culture of Egypt - Supreme Council of Antiquities)
22/04/2009
Submerso longe tumulto mundo
Perturbam paz de meu nada aquoso!
Ouço guerras, dramas, naufrágios...
Pra lembrar meu fim trágico
Ou castigo pelos homens que deixei?
Todos equidistantes da morte.
Um fazendo pão, outro comendo, conversando...
Avaro guardando moeda que não te ria juros...
Os que morreram no sono
Sonharam pesadelos perfeitos...
Naquele dia haveria peça teatral:
Espectadores e atores representariam mesmo papel.
Onde vossos reis e seus vassalos?
Onde o último que morreu com língua morta?
Mapa - a memória dum país.
Milhares seres que viveram como nós.
Milhares nomes reduzidos a um só nome:
Eis o que foi um povo (morte é resumo).
Vento passa sobre solo onde jazem todos
Como dedos sobre páginas da História.
Em tua nave o clandestino eterno: aventura.
Mais que ninguém o levaste na era antiga.
Aos povos que encheram tuas naves com riquezas
Deste, grato, poder descrever no alfabeto
Visões marinhas que inspiraste.
Povo mais feliz da antiguidade!
Vosso teto decorado pelo azul infinito,
Vosso lar com janelas abertas para todos horizontes,
Sob vagas e ventos
Balançantes como vosso coração!...
Outros povos semearam, pastoreavam.
Com o rebanho de vossas naves
Semeastes cidades,
Plantando vosso pés em todas praias.
Nunca mais, cidade, voltareis!
Ilusão fez vosso olhar mais puro!
Não sabíeis estrelas morrem, sóis têm manchas
Nos céus que amastes tanto...
Pra vós beleza foi eterna!
Que resta do império construístes com tanta crueldade?
- Deserto...
Erva - pisastes, alimentou vossos cavalos de guerra -
Cobre animal e cavaleiro.
Leões guardam vossos templos
Goelas abertas aspecto sanguinário:
Ruínas... Tempo os domou!
Trigo, vinha nascem onde História existiu:
Sob terra ventre de tuas mulheres gera inda!...
Tudo passou... somente
Carne sem esqueleto das estátuas resta aí.
Heróis! Lendas! Lutas! ...
Campo cego não vê mais façanhas
Que, ó cego sublime, descrevestes!
Consolais Homem abandonado no cosmo...
Deuses foram um dia hóspedes da terra!
Tuas ilhas, florestas, mares, céus.
Harmonia do corpo grego.
Teus templos, mármores, colunas.
Somente Perfeição uma vez no tempo!
Quando beleza terra, homem, obra se equivalem.
Tua era, Atenas!
Tuas águias sem voo fizeram ninhos
Em mapas: raças novas.
Ninaste Europa no berço com canção tua língua.
Tuas ruínas!... escombros sem tetos
Mais belos com teto infinito...
Teus edifícios vazios... ah com que ânsia, cautela
Teus filhos os fecharam para não serem roubados.
Clepsidra - relógio de água - da História
Que mar teve naufrágios mais preciosos?
"... comitiva numerosa de César ficou
alojada jardim minha mansão.
César cansado se preparou para um banho refrescante antes ceia.
Salão ao lado se ouviam risos seus lugares-tenentes..."
Sabemos quanta vida palpitou num dia perdido da História, porque carta teve dois endereços.
Por que carta teve duas datas...
Suas águas tatearam corpos antes terra,
Lavaram o passado.
Em que profundidade mergulham agora
Banhistas de outrora?
Bicas vazias, piscinas rasas, silêncio, desolação...
Apenas natureza caridosa vez ou outra
Enchendo-as com suas chuvas
Lembra rumor antigo.
"Cavem canis" inscrito numa casa Pompeia.
"Cuidado: cães" numa casa subúrbio Rio.
Nem os cães nem os homens mudaram.
- Roubei fogo, aclarei humanidade!
- Da centelha simples à era atômica
Fogo destruirá civilização!
- Meus descendentes crescerão cada vez mais
Abrangerão cosmo... irão além!
- Louco! Cosmo crescerá também!
Rocha redonda subindo/rolando montanha
Esferas rodeando mesmas elíticas universo
Círculo prótons girando alma átomo
Círculo lágrimas eternas
Círculo relógio ponteiros reiniciando
Círculo ondas indo/voltando praias
Círculo óvulo reproduzindo vidas...
Quem recomeça sempre: Sísifo ou Criador?
Envelhecer:
Mais anos a recordar
Que anos por viver.
Somos cofres da morte:
Não sabemos quantos anos
Ela depositará em cada um.
Criminoso, dizem, volta sempre local do crime.
Que tristeza! Encontrei mesmo mundo. Vi crianças brincando
numa roda cantando:
Todos se chamam Abel
Ninguém se chama Caim,
Todos querem ser bons,
Ninguém que ser ruim.
Por que continuo com estigma milenar?
Por que uns gozarem paraíso e outros sofrerem
Danação eterna? Não se pode gozar paraíso vendo
Outros irmãos sofrerem. Não se pode dividir
destino do todo.
Não somos eternos, por que nosso erro o será?
Por que te contemplas nágua, Homem
Único que tem espelho dentro de si?
Quão imperfeito mundo!
Meu tato torna ouro o que toca...
Ah fosse assim minha visão!
Sou o sonho de todos mortais: nunca morrer!
Testemunhar tudo passa, tudo finda
Milênios sumirem um a um... ó ilusão!
Minha imortalidade é ver morrer!
O mundo não foi feito pra se entender,
Foi feito pra se viver... Viva o prazer, irmão.
Goza, ama... cor da carne não é eterna
Como azul, cor infinita.
Louco de hospício ou ser normal,
Morrendo bebê ou centenário
Terás mesmo quinhão de ignorância sobre o mundo
Mortal ou imortal
Nunca compreenderás universo.
Simbolizo tua dor!
Tudo fazes no mundo, exceto o mundo...
Tantos bilhões galáxias!
Por que nos dado o mais triste dos astros?
Nem o mar, montanhas, vales,
Nem o céu que tudo irmana:
Melhor paisagem - paisagem humana.
JEREMIAS EM JERUSALÉM DESTRUÍDA
Não mais filhas de Sião
Equilibrareis cântaros à cabeça!
Estão cabisbaixas de humilhação...
Cidade-fantasma! Nada ficará de pé!
Vento indivisível como eternidade
Não esbarrará colunas, paredes á sua frente!
Chão indivisível não se partirá
Pras sementes do pão ou covas, sementes do passado!
Deserto Judeia Deus apareceu a Judas.
Nenhum homem palco galáxia
"Bem-aventurados os que..."
Morrer! Ser íntimo das coisas prescrutei tanto!
Além caverna escura
Quem ante um desconhecido
Ó bárbaros aludes de terras longes!
Albornozes ao vento! Clangores! Cavalgadas!
Meditas deserto... Quantas civilizações passaram aí!...
Bósforo - beijo úmido de dois continentes!
Paisagens inda virgens! Cenários exóticos!
Que povo te habitou?
Nenhum mortal criou tantas mortes!
Todos imitaram Jesus adulto.
Imortalidade talvez seja sonhar paraísos!
Quantas infelizes! Quantas casaram sem amor!
Ruínas: pote cosmético fechado
Por que ó eremitas vos isolardes do mundo?
Sentinelas passam amuradas.
Teus santos esculpidos nas paredes:
Pela fé, irmãos, queimastes irmãos!
Marcaste rebanho ideias com ferro: imprensa.
Ó Ibéria
Marujos outrora! Sós oceano ao léu!
Grandeza era fatal!
Ó mais universal de todos povos!
1492. Dormias, América.
Corpo deformado criou corpos perfeitos
Um instante da eternidade
No salão banquetes houve iguarias,
Filho do mar! Semente povoação:
Podes dormir sereno em teu túmulo
Nesse altar de sacrifícios
Qual primeiro índio viu primeira caravela?
Multidão carrasco oficiais padres
Ó mulheres, velhos, moços, humildes.
Quantos seres inda povoarão mundo!
"Serás exuberante, América!.
Quem ante colheita farta pulou alegre
Do silêncio ruínas
Personagens ficção mais reais
Legionário desviou lança endereçada César
Vida é uma corrida
Dos milhões povoaram antiguidade
Fizeste maior renúncia do Homem:
Quantos violentastes, espoliastes, oprimistes?
Frio, seca, opressão, fome, guerra, dor...
Ó vão esforço da natureza
Antepassados!
História mente! Nunca amei nem fui amada...
Podia meu irmão me amar?
César, Antônio... plebeus realizaram sonho
Possuir rainha terem filhos reis...
Amaram o poder, não a mulher!
Quantas vezes á janela do palácio
Vi Lua refletir elmo dos soldados
Abraçados às minhas súditas!
As invejei rainhas que me invejaram...
Ó minha coroa! quantas cabeças cingistes!
"Não há bons nem maus! Todos têm seu papel!".
Alguém denunciará Jesus
Porque plano divino
Derrame sangue por seus irmãos!
Escolhido homem como Jesus o foi!
Somente tu no mundo saberás razões de teu ato!
Somente tu saberás tua grandeza, ninguém mais!
Sofrerás ódio de todas gerações!
Ah nunca haverá solidão igual á tua!
Até pra morrer valerás de ti!
Martírio Jesus será glorificado!
O teu, desprezado!
Jesus se sacrificará pelos homens!
Te sacrificarás por ele!"
... Deus lhe beijou face.
Representou papel de Deus melhor que vós!
Sonhastes maior de todas ilusões:
Criador morrer por criatura!
Bem-aventurados os que ouviram
Modeladas pela aragem da tarde
Palavras da única língua humana.
Bem-aventurados os que assistiram
Maior entardecer do planeta.
Bem-aventurados os que subiram a mais alta montanha...
Mais bem-aventurados os que lá estiveram.
Homens abrem muitos caminhos sobre a Terra.
Somente um sob ela.
Além nosso planeta: o cosmo-perfeição!
Ó estrelas, goteiras de luz!
Poderia pressentir sua divindade?
Perceber sua grandeza -
Um homem valer uma humanidade?
Quantos milhares participaram cena?
Quantos de vossa raça, língua, crença?
Soldado, não místico. Romano, não judeu.
Por que somente meu o dilema ante vós, Jesus?
Fui mais justo pra vós que História pra mim!
Lavei minhas mãos... todas estavam sujas
Do suor expectativa, palmas, vaias.
Atravessastes frio fome sede
Vales desertos pântanos geleiras.
Reis futuros saíram de vossas camadas obscuras!
Das mulheres vencidas na guerra e no amor
Raças novas surgiram!
Vossos lamentos somados através todos caminhos:
Vagido da era no seu parto!
Brasão domina o mundo: Lua-crescente!
Somente Lua povoa deserto
Enchendo céu de habitantes!
Areia tudo apaga: pegadas e covas, pegadas dos mortos.
Deserto sempre igual pra cada viajor.
Infinito onde cosmos somem sem vestígio
Sempre o mesmo a cada geração o desvenda.
Tuas águas refletiram
Saques, destruições, guerras, fim de eras...
Apesar tudo isso
Doaram beleza a todas gerações...
Caminhos perdidos! Limites remotos Terra!
Percorrer mundos! Fascínio! Aventura!
Não saber onde ficará seu quinhão de terra!
Contemplar horizontes!... além: Índia, Catai!
Pó a invejar vossos olhos os açoitando!
Outros sentidos são proximidade, presente.
Visão: sentido do futuro.
Ó viajantes, pioneiros, descobridores!
Buscar o não visto, o novo, o inesperado,
Recomeçar a vida a cada instante ...
Buscais mocidade eterna.
Como construíram tais monumentos?
Por que desapareceram subitamente?...
Na praia deserta
Ondas morrem aos pés de estátuas misteriosas...
Mesmas ondas que apagaram pegadas dos seres passados.
Nem assim saberás mistério!
Nem Beatriz nem Virgílio ó poeta
Nem um dos mil seres que teu gênio reviveu
Poderão te guiar no último milênio!
Foste perfeito -
Imitaste Jesus também criança.
O que nasceu pobre, nu, numa manjedoura
Rodeado de bichos e de astros.
Dê sempre. Nada é seu, nem sua vida.
Morte: sono com sonhos sem fim...
Ou conhecer todos cosmos... viajar talvez!
Talvez - palavra maior que Infinito.
Pátria longe, marido estranho, terra estranha...
Dar paz aos povos sacrificando paz de sua alma!
Quantas amando filhos sem amarem pais!
Sufocaram afeto seria escândalo, talvez guerra!
Quantas amaram ninguém soube
Soldado ínfimo palácio, súdito humilde
Noivo de sua própria escrava!
Quantas amaram proibidas alcovas secretas...
Esconder logo ao nascer fruto seu ventre!
Não poder mãe o acariciar!
O dar a outrem, esconder origem!
Nunca saber seu nome! Nunca saber seu fim!
Destes á luz criança morta!
Sofrestes! ... Porém nunca
Brilho lágrima foi ofuscado por tanta jóia!
Nunca coração bateu amortecido por tanto veludo!
Nunca dor quando busca solidão pra chorar
Teve confidentes maiores: alcovas reais!
Não embelezou sua dona romana.
Ser bela pro amante, esposo, pretendente?...
Embelezou imaginação dos pósteros.
O vivo, o morto, cosmo... um mesmo ser, mesma solidão!
Não há forasteiros no Infinito.
Barões, servos dormem depois banquetes.
Virgens em balcões ouvem trovadores amorosos...
Lua, brilhas sobre evocações!
Brilharás sobre ruínas Nova York, Moscou
Tomando tudo de empréstimo:
Teu brilho do amante eterno
Tua brancura - das nuvens te roçaram
Tua forma - dos olhos te contemplaram
Tua distância - dos sonhos remotos que inspiraste
Teu silêncio - dos que dormem tua hora.
Lembrar pó que foram.
Teus zimbórios - diamantes da arte - riscam vidro do céu.
Pedra parece mãos em oração em teus arcos.
Pra que tivésseis, Deus, como nunca
Vosso incenso maior
Cinzas fosse junto almas caminho do céu...
Um dia Juízo Final
Seremos todos coevos, uma humanidade somente!
Não crença, raça, língua. Tempo nos divide.
Dividiste aventura em 4 partes: Bússola.
Da Europa o punho cerrado
Segurando oceano!...
Fizestes da vela bandeira do desbravar!
Deixastes terra firme: buscastes o móvel, incerto, vago.
Não o presente, diário, rotina:
Aventura, o novo, o duvidoso!
Não porto sabido, o desconhecido.
Não espera parentes, acenos lenços:
Raça nova á chegada!
Ó Colombo, Magalhães, Vespúcio, Cook!
Vivestes com pensamento no amanhã
Merecestes glória do futuro.
Balançar perpétuo sobre abismo aquoso...
Longe, idear na memória amigos, parentes...
Imaginar que dizer, fazer na volta...
Mais que em terra pensar no destino...
Falar mais pra si (pouca humanidade o rodeia)...
Vigiar horizonte, buscar insondável...
Temporais! Suplicar ao céu...
Contemplar mais que agir!
No mar ser é mais espírito que carne...
Quem senão vós espalharia cruz de Cristo?
Mil rios, selvas, montes, vales...
Cada passo pra que não parasses, desbravador,
Deixava vislumbrar encanto novo, outra paisagem...
Terra ensinou aos homens sua dimensão.
Vossos olhos - âncoras em todas paisagens Terra!
Vos unindo a todas raças
Enchestes noites de todos céus de sonho, amor!
Compreendo vossa atração pelo mar:
Só ele tem dom dos deuses:
Tornar grandes aqueles que o contemplam!
Os que viram naves no horizonte nada perceberam.
Uns sonhavam, outros pescavam, amavam
Estavam nos Andes longe mundo.
Nada partilhou fim da Era...
Terra, Almirante! ... depois sofrer tanto!
Tremes de amor ante terra firme
De teus olhos choro velho ante continente novo!
Vês na imensidão pátria da liberdade:
Tudo que é livre é grande! ...
Te sentes supremo!
Maior dos sonhadores: sonhaste um mundo!
Em tua visão pensas
Talvez Deus não criou ... descobriu!
Tuas estátuas são mais santas
Em pedra que na carne.
Deus contemplou a própria criação...
Só uma vez Cronos - algoz do Tempo
Chorou por uma Era.
vinhos, corre-corre criados, palestras convivas...
Hoje vazio: até a morte se banqueteou...
Aqui outrora houve festas,
Odaliscas, músicas, sultões,
Eunucos guardando belas mulheres...
Tudo passa.
Que eunuco guardará a beleza que criamos?
Primeira pegada na praia descoberta!
Semente língua grito do gajeiro: "Terra!"
Ó primeiro a saber real dimensão dele!
Primeiro que foi
Até onde sugestão do mar nos leva!
Não há mais vítimas nem sacrificadores.
Apenas Sol sobre ele morre todos dias
Em sacrifício pela eternidade.
Um que foi pescar mais cedo e viu o mar
Além beleza ondas, peixes inda podia ofertar algo mais?
O pajé que viu o mar possuir mais magias que as dele?
Alguma índia foi mais cedo pros afazeres domésticos
Pensou ondas bojudas também davam à luz?
Um indiozinho fora brincar na praia
Sonhou talvez ter seu barquinho de brinquedo como aquele
Teve nos olhos infantis a infância do futuro?
Nautas e índio nascido aquele instante
Descobriram um mundo.
Todos que o viram no cadafalso
Lamentaram sua morte vergonhosa.
Mães apontaram como exemplo pros filhos o castigo
Do criminoso comum, do rebelde sem motivo.
Entanto todos tiveram morte pior porque definitiva.
Vanguardeiros dos direitos plebe
Os que História esquece!
Amastes glória alheia, a sonhastes pros filhos.
Ignorando grandeza de vosso gesto!
Ah partir sem abraçar todos irmãos!
Sem conhecer todos parentes
Um dia habitarão planeta!
Chão fundirá - primeiro mestiço americano -
Pegadas do indígena e estrangeiro!
Teus descendentes buscarão outro eldorado:
Trigo, ouro da fome!
Calor do trabalho dilatará progresso!
Metais sairão das profundezas:
Ouro prenderá riqueza, bronze prenderá memória!"
Pulo se fez dança?
Quem ritmo duro trabalho servil
Suavizou com ritmo cantos?
Quem visões de sua infância misturou infância da raça?
Que parente perdido milênio remoto
Num beco da História
Fez chegar seus sonhos não o sonhador?
Ouve-se eco do passado!
Tensão atletas, decisão juizes,
Torcidas multidões, pregões vendedores...
Na planície deserta resta de tudo
Só a faixa de pedra no chão
Marcando início da corrida...
Ninguém sabe onde final dela.
Que os que viveram ignorados:
Mortos perdidos lugares mais distantes
Oásis, geleiras, ilhas desertas, florestas virgens.
Desertores, suicidas nunca achados.
Os que viveram ignorando metade humanidade:
Indígenas, esquimós.
Inocentes pagaram crime alheio.
Amantes obscuras de um dia... mães sem saberem de reis
Órfãos nunca viram seus pais.
Massacre cidades não citado por historiadores.
Migrações trágicas de raças início mundo.
Os que foram pra solidão e ninguém soube.
Tudo passou pela Terra, nunca veio à tona:
Beleza perdida de obras queimadas...
O não revelado morre pra sempre?
Somente céu sabe quantos olhos o fitaram?
Mendigo morto agora beco Nova York
Negro devorado selva remota Congo
Beijos não dados, palavras não ditas
Pensamentos recolhidos, segredos não descobertos
Tesouros mais ocultos porque nunca achados.
Os que os acharam morrendo com mistério.
Últimos pensamentos dos que morreram subitamente.
Atos íntimos visto casualmente alcova, praia deserta...
Todas intrigas dos palácios não sabidas...
Quem achará História perdida? Quem sabe tudo que existiu?
Quem viu todos desenhos feitos pelas nuvens
No céu milenar?
Escrava levou serpe a Cleópatra
Soldado também desejou mulher de Urias
Vagabundo seguiu na estrada Buda
Servo ouviu tramas mortais de seus amos Bórgias
Primeiro marujo pisou praia
Continente recém-descoberto
Mendigo que salvou
Um dos assassinos de Inês de Castro
Transeunte viu Hiroxima avião fatal...
Falar dos obscuros, não dos grandes.
Escravos na construção pirâmides
Fazendo imortalidade alheia.
Em que todos chegam por último.
Uns existiram, outros deixarão de existir.
Nada existe.
Milhões galáxias...
Só há a história da espécie humana?
Quantos ficaram além dos célebres: reis,
Artistas, filósofos, místicos, generais?
Nomes citados por historiadores ou livros
Nomes em números: 80.000 romanos mortos
batalha de Canes.
Vestal seduzida por Catilina.
O homem por quem se afeiçoou esposa de Péricles.
Os que ficaram mumificados:
Adolescente egípcia no museu (adolescência eterna).
Múmia índio duma tribo extinta floresta amazônica:
É morto único sobrevivente.
Cidadão Mesopotâmia
cuja existência sabemos porque
deixou em cuneiformes provas ter lesado fisco... não imposto da morte.
Coliseu séculos milhares espectadores
Só um nunca deixou o espetáculo:
Garatujou seu nome numa arquibancada.
Não teve lápide na morte, teve lápide da vida.
Cidadão de Cesareia há milênios
Escondeu seu dinheiro numa mó de trigo.
E sua vida no passado.
Noventa e nove moedas de ouro renderam maiores juros:
Sua imortalidade...
Nomes em baixos-relevos.
Nomes em inscrições tumulares:
Escravo Eucópio chorando filhinho morto:
Agora ele não chora só.
Nomes em cacos cerâmicas,"Felix Fecit"... cacos da imortalidade.
Nomes truncados, só metade em inscrições quebradas...
Os que nem metades ficaram na História.
Sendo Deus
Renunciaste à própria divindade.
Vão! Até o sol que adoraste
Tem a palidez da morte, no ocaso...
Até quando vagaremos? Até quando nossos cadáveres
Espelharão cadáveres dos séculos?
Quantos derramaram sangue
Pra dar mais púrpura a vossos mantos?
Nenhum vossos súditos resta mais...
Ó poder do poder! Vós perdurais
Tronos coroas jóias palácios
Vivem em ruínas ou museus...
Novos súditos:
Multidões os contemplam extasiados...
A que não se pode adaptar o Homem
Se adaptou ó Deus
Á permanente presença da morte?
Por que em nossa solidão cósmica
Só a lágrima
Tem a companhia doutra lágrima?
Transformar o Símio em Homo Sapiens!
Pra que a razão se nos leva à loucura:
Pode-se criar o Infinito?
Ó Buda! dissestes nem nascer nem renascer:
Nunca ter nascido...
Se única vida vos resta a da memória
Sou feliz ter feito poema.
Alguém se reconhecerá nestas evocações!...
Algum crepúsculo Forum César lembrou dias infância.
Alguma mulher alguma noite alguma rua Corinto
Chorou amante desterrado.
Algum nobre escravizado ante ondas Bósforo
Madrugada remota pensou pátria longe...
Ah morte ser dividida A.C., D. C.!
Onde impérios, reis, vassalos
Gênios, batalhas, façanhas lendárias?...
Por que ó Deus quando mergulhamos no mar passado
Somente olhos voltam molhados?
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