10.000 anos de História!
Quantas crueldades foram praticadas!
Quantas não sabidas?
Quantas mais ficaram só no pensamento?...
Dentro de teu lar na tevê
Desempregado se suicida,
Colaborando pro nosso suicídio.
Assassínio bebês pra transplante órgãos -
Matar o são pra salvar o doente,
Matar o inocente pra salvar o pecador...
E os sacrifícios bebês no fogo para aplacar deuses?
Matar o indefeso para agradar o Todo-Poderoso,
Matar o que nada sabe para agradar o Onisciente...
Qual limite da maldade humana?
RONDON
Abriu caminhos no ar (fios telégrafos)
E caminhos na terra em selva espessa.
Amaste duas pátrias:
A conhecida e a desconhecida.
ARRANHA-CÉUS
Embaixo espremidos por monstros do asfalto
Multidão, ferveis!
Ânsia de subir pisais uns nos outros
Esquecidos de vossa humanidade.
Arranha-céus vos repetem:
Querendo alcançar céu, o escondem.
POETA
Mais que todos trabalhadores trabalha dormindo,
Acordado, domingo, feriado. Não tem salário nem
emprego. Todos vivem sua vida. Ele vive por todos.
EPITÁFIO DE POETA
Quero ser lembrado
Por lembrar todos seres do planeta.
EINSTEIN
Deus fez a Terra, partiu a criar resto Criação!
Por isso sentimos abandono milenar!
Por isso, ó sábio, Infinito é expansão eterna!
FILHO DISTANTE
Noutro continente, a distância, ó mãe,
Nos faz ver como nos amamos!
Como do alto da montanha
Se vêem quilômetros à frente
Que caravana na planície não vislumbra...
BRASÍLIA
Tanta claridade entre dois planaltos - céu e solo -
Que sol acorda si mesmo.
Tudo era início, aurora.
Até chão vermelho de aurora.
IRMÃOS NEGROS NORTE-AMERICANOS
Os que ficaram cegos: lhes lançaram ácido nos olhos:
Ousaram olhar para uma branca!
Os que criancinhas perderam visão
Não as curou hospital exclusivo doutra raça!
Os que estudantes ficaram cegos
Não viram luz saber
Mesmo banco escola junto crianças brancas!
Os que moços sem emprego
Cederam empregos pros desempregados brancos!...
Porque sua cor
Combina melhor com porões, prisões, bordéis!
Os que pais e filhinhos morreram domingo
Sob bomba lançada igreja de negros
Transformando missa em extrema-unção!...
Onde tanto horror, irmãos?
Não em época remota, em nossos dias!
Não na escravidão, em país livre!
Na paz, não na guerra.
Quando sangue derramado equivale ás lágrimas choradas!
BRASIL
Ó pátria sempre moça
Mistura de três raças infantis!
Deslumbramento descoberta mundos novos
Tornou criança luso que te conquistou!
Magia! Tabus! Tambores!
Negro encontrou no indígena americano
Seu companheiro de brinquedos!
UM PAÍS EM FORMA DE CORAÇÃO, CORAÇÃO DO MUNDO
A Vilmar Roberto Cidade
Sem furacões, maremotos, praias mais extensas do mundo
Para abrigar todos náufragos, exilados, emigrantes...
Azul do céu mais amplo do planeta
Pra suavizar todas súplicas, lágrimas, esperanças...
Solo sem vulcões, terremotos
Pra firmar lares todas raças,
Segurar templos de todas fés,
Dando frutos para todos gostos...
Sem cadeias, píncaros altíssimos
Pra que todos possam atravessar, se unir...
Mil rios são veias desse coração
Pra saciar sede de todas gerações...
CIGANO
Quando mundo for somente megalópoles
Onde achareis campo pra vossas tendas e vossa música?
Tantas pegadas errantes pelo mundo
Fizeram vossos pés ágeis na dança.
Tantos adeuses ao vagardes pelo mundo
Tantas mãos estranhas lestes "buena-dicha"
Fizeram vossos dedos hábeis no tocar.
LUTA SOCIAL
Sempre oprimidos e opressores!
Ah desde aurora mundo
Irmãos pré-históricos habitavam cavernas
Outros dormiam ao relento
Geladas noites primitivas...
CIDADEZINHAS DO INTERIOR
Todos sonham vencer cidade grande
Sempre antigas, melancólicas...
Despovoadas: moços que se foram.
Despovoadas: alma dos velhos que os seguiram.
POLUIÇÃO
Tu, Irmão primitivo, adoravas natureza.
Tudo te era sagrado: rio, animais, plantas.
Ar que respiravas era mais puro
Povoado de deuses, espíritos de teus mortos.
Devastamos o que nos cerca -
Detritos, venenos, explosões, fumaça...
Mundo ficou menos sagrado:
Quem respira deuses ou antepassados?
II
Sou um velho curvado
Por carregar sobre meu dorso bilhões seres.
Fui um planeta resplandecente... flutuando no espaço!
Quando eras sobre mim um leve simples par...
Ah tivesse eu face oculta da Lua
Para esconder meus males!
EXILADOS POLÍTICOS
Exilados de tantos povos!
Fostes longe pátria choferes, operários,
professores, guias turismo, babás, criados,
garçons, porteiros, tradutores, mendigos...
suor do pão em terra estranha
rega frontes onde não germinam sonhos.
Invejar próprias lembranças... que partem, chegam à pátria!
Pátria vos chegar em pedaços
Aos corações despedaçados:
Em retalhos na bandeira, no som da língua pouco ouvida.
Em retalhos imagens nos retratos,
Em retalhos papel nas cartas censuradas palavras cortadas
Quando se necessita tanto de palavras!
TORTURA
Quantos nesse instante presos inocentes prisões mundo
Campos concentração, delegacias, quartéis, reservas?
Que lugar, porão, canto, desvão Terra em 10 milênios
Não teve seu ar sobressaltado
Pelos ais dum torturado?
Índios contaminados doenças mortais pra cederem terras.
Animais torturados:
A dor sem parentes, sem palavras, sem defesa.
Quantos milhões animais sacrificados inutilmente a deuses inúteis!
Torturar inocentes pra que confessem crime
Que está mais dentro do torturador.
Ah torturadores
Se órgãos arrancados fizessem mais perfeitos vossos corpos,
Se moços matastes vos doassem mocidade,
Se tantas vidas tirastes vos doassem mais anos de vida!
Crime imaginário que inocente sob tortura confessou
Igual pecado original que humanidade sofredora imagina?
Se tortura poeta em descrever poema,
Se torturam todas gerações que o lerem,
MULHER
Carrega no ventre e nas costas
A civilização
Ao dar à luz, ninguém mais perto do Criador.
A mulher já nasce mártir.
PIONEIROS
Perdidos temporal Ártico
Enfrentando febres, selvas África
Lutando com selvagens desertos, Austrália, faroeste...
Aumentastes língua
Dando nomes países, rios, faunas...
Morrestes sós sem uma palavra de consolo!
Pioneiros de vôo! Sem rumo, sem visão, sem rádio, sós!
Roçar asas avião cordilheiras imensas
Onde rugir hélices equivale rugir borrascas!
Picos gelados puros como pureza infância
Dos rios que aí nascem...
Roçar geleiras árticas infindas
Nas sombras das asas sobre gelo branco!
Voar solidão oceanos sem praias
E praias sem mares de Saaras!
PRESIDIÁRIAS
Não sei crimes que praticaram.
Penso na condenação dupla.
Das que geraram bebês na prisão,
Tirados de seus seios pra crescerem longe...
Saudades, lembranças, lágrimas
Continuando dores do parto...
Longe da prisão filhos estão livres...
Mães eram menos infelizes
Quando eles estavam presos dentro seus corpos...
Quem espera nove meses o que virá
Tem sempre esperança no coração.
MÉDICOS
Atletas sem descanso, sem recordes
Tendes correr à frente da morte.
Não tendes parentes, tendes todos parentes.
Vossos ouvidos contêm mais rumor prantos, gemidos
Que palavras.
Vosso tato apalpa mais dor que prazer
Nas feridas, no sangue,
Mais perfeito ator
Representais impassibilidade e esperança
Para uma plateia sem aplausos dos doentes.
Confidentes da morte:
Sabeis paciente vai morrer, doente não sabe...
Ajoelhados sem rezar nos campos batalhas,
Nos soalhos sem cama dos pobres de pão e de longevidade.
Ah só vós possuis angústia
De não salvar e não poder ser salvo!
ÁRVORES
Dando mais luz e calor do que receberam
Transfeitas em fogo
Alumiaram noites de todos milênios.
Saindo da noite interior do planeta
Movem mundos no petróleo.
É fruto e fogo que o cozinha.
Sem farfalhar galhos, ninhos desfeitos
Aprisionam cantos aves nas gaiolas
E rumor nos berços.
Dão descanso duplo:
Cama e tocha que nos vela perigos noturnos.
Sem flores
Dão mais beleza nos utensílios que nos cercam.
Despidas das copas
Dão mais sombra nas vigas dos tetos.
Como caixão mortuário voltam às raízes
Nos levando juntos.
Ou como postes sustentando fios no ar
São plantadas de novo com raízes no céu.
Sem ressentimentos
Se fazem cabo do machado que as destrói.
Gratas - se fazem imagem, altar Daquele que as criou.
A BALANÇA DE DEUS
Diabo sorriu: seria mais fácil vitória desde que ganhou
Fausto. Apostou que se pesassem num prato de balança todos altruístas e noutro bilhões
seres que passaram planeta, o Criador perderia toda sua Criação.
Enquanto Diabo punha num prato milhões e seres, Criador ia pondo noutro prato os que
pensaram no sofrimento dos animais - São Francisco de Assis. Os que buscaram
humanizar criminosos - Epíteto, Becaria. Os que lutaram pra redimir escravos
-
Espártaco. Os que buscaram expiar culpa duma civilização - Schweltzer. Os que ajudaram
feridos, órfãos, viúvas guerra - Henri Dunant. Os que se sacrificaram pra salvar espécie
- Jesus. Os que pensaram na multidão dos que trabalham pra ficarem mais pobres -
Marx. Os que buscaram um lar pros expatriados - Teodoro Herzl. Os que se condoeram
com a dor humana - Buda. Os que buscaram a não-violência - Gandhi. Os que elevaram
seres dominados como as mulheres - Stuart Mill. Os que patrões se rebaixaram pra
melhorar seus subordinados - Agis, Cleômenes, Gracos, Tolstoi, Robert Owen. Os que
buscaram amor de Deus no amor aos fracassados - William Booth. Os que tomaram para
si a culpa alheia - Tiradentes. Os que aliviaram, curaram doentes - Pasteur, Braile,
Fleming, Sabin. Os que sonharam uma humanidade fraterna - Tomás Morus... O que
perdeu a liberdade para libertar seus irmãos negros - Mandela.
- Isso é um roubo! Essa balança é falsa como tudo que fazeis, Criador! -
disse o Diabo vendo pratos se equilibrarem.
Criador respondeu: - Não, senhor Diabo. Cada altruísta desses
vale um bilhão de homens.
MARUJOS APÁTRIDAS
Não os comuns com família, porto fixo, pátria.
Os que na nave têm único lar, único parente.
Despedidas, abraços nunca pra si em cada cais
Sonhos despovoados em camarotes desertos
Noites no convés a solidão ritmada pelas ondas.
Os sem endereço, sem rumo metrópoles
À deriva vida
Sem saber onde desembarcarão sua velhice.
Talvez algum bordel alguma cidade mundo
Deixaram esboço filho nunca saberão.
Os sem lembranças, amores, sonhos
Por os terem pouco
Os prendem na própria carne: tatuagem.
Os que têm mais solidão porém mais paz.
Embora vendo Infinito pelo olho alheio das vigias -
O sentem mais!
DOMINGO
Ó mais humano dos dias! Existes dentro de nós
No perpassar monótono do cosmo.
Nos diferencias
Dos animais que não te possuem.
Por isso não existes nas guerras...
AIDS
Recém-nascido aidético morre
Entrando na morte como entrou na vida:
Passageiro clandestino mandado de volta.
ALTRUÍSTAS
Ó grandezas obscuras
Os que entram História sem bater porta, sem rumor.
Os que se doam, os que dão:
Mãos juntas têm forma do coração.
Os que vão curar tribos pobres
Silêncio floresta remota...
Fogem rumores civilização
Para ouvirem melhor dor humana.
Missionários solidões mais longínquas da Terra
Nem cruz que levam suas perdidas covas terão.
Os que párias nas favelas
Adotam filhinho do vizinho morto. -
Mais um corpinho tapa
Buracos de seus soalhos sem camas...
As que nunca casaram para cuidar dos pais velhos...
DEFICIENTES
Iniciar corrida vida em desvantagem
Os que nascem cegos, loucos, aleijados...
Ah, os que passam fome em cadeira-de-rodas,
Os que sem mãos não têm como pedir,
Esmolam pelos olhos!
Quantos luta pela vida merecem medalhas
Que só heróis ganham nas batalhas!...
Ó mãos abençoadas!
Empurraram cadeiras-de-rodas,
Levaram colher de comida ou dos remédios,
Guiaram mãos cegas, banharam sujeira!
Ó mais sublime das mãos!
As que fecharam olhos mortos dos deficientes
Sem sentirem alívio
Pelo fim do próprio sacrifício!
AVÓS/NETOS
Quantas vezes no mundo estas cenas!
O terno e longo olhar dos avós ante netos
No longo girar das gerações!
Ah o troglodita trêmulo de emoção
Pelo primeiro netinho
Sob trêmulo fogo das cavernas!
Avós doença terminal vendo neto recém-nascido:
Marco dos descobridores na terra desconhecida...
E avós vendo neto do único filho morto?
Sentindo remorso
Por misturar seu pranto dor e alegria...
INVOLUÇÃO
No planeta em ruínas
Milhões e milhões anos de opressões, guerras, tóxicos, poluição,
Luta vã em desvendar mistério
Farão teu cérebro menor.
Cada vez mais com menos ideias, sem ter o que falar
Dispersos sem comunicação uns com os outros
Voltarás aos grunhidos e uivos.
Milhões e milhões anos
Mirando cabisbaixos chão à cata alimentos
Tendo que os cavar na terra dura
Farão tuas arcadas e unhas crescerem
E teres postura agachada.
Dureza alimentos fará teu queixo maior.
Invernos crescentes cobrirão teu corpo de pelos.
No planeta sem edificações voltarás às cavernas
AO CIVIL DESCONHECIDO
Por que não um monumento
Ao Civil Desconhecido?
Quem sustentou hordas de Gengiscan,
Mercenários de Aníbal, exércitos invasores?
Quem foi forçado ceder suas colheitas,
Seu pão seus lares, suas mulheres, seus filhos?
Quem milênios perdeu todas guerras?
ENFERMEIRAS
Quantas esposas, mães vossos braços consolaram!
Quanta vez choro alheio molhando branco uniforme
Vos saiu pelo branco dos olhos!
HAVERÁ PERDÃO
Haverá perdão se último milênio
Número mortos pelas mão dos homens
Mais que mortos por Deus?
Homens nascem nus.
Mais da metade morre de uniforme.
CONTRABANDO CRIANÇAS JUDIAS
I
Heróis História não sabe nomes!
Freira trocou passaporte com moça judia
Morreu em seu lugar...
Ganhou passaporte universal.
Os que arriscaram suas vidas
Salvar crianças através fronteiras...
Seus bracinhos erguidos pros seus salvadores
Como os homens os erguem pra Deus!
Rostos colados nos abraços da dor
Purificando suas lágrimas com lágrimas infantis...
Se há seres como vós
Deus não pode ser
Menos generoso que nós!
II
Quanta vez heróis anônimos!
Escondidos sombras noite
Orastes pra que choro criancinhas inocentes
Não alertassem perseguidores!...
Ah luz holofotes, matraquear metralhadoras!
Quanta vez fugas madrugadas frias
Despistes vossos corpos congelados
Agasalhar corpo tiritante de criancinhas!
Ó noite na História humana
Amiga dos infelizes!
Tuas sombras salvaram
Escravos, fracos, perseguidos!
MÃE VIETNAMITA
Filhinho parte: vai adotado América longe
Mãe desconhecida, terra ela nunca viu.
Como Criador
A entregar ser ao desconhecido.
Acena pro avião que sobe Infinito...
Por que esperança é verde, se céu é azul?
Não pára de acenar mesmo quando avião some no céu:
Suas mãos não têm mais o que segurar.
ANTE ESTÁTUA HERÓIS
Ó heróis pátria!
Se todos mármores glorificadores violência fossem
feitos em pó refletiriam palidamente pó levantado
pelas batalhas. Todo bronze derretido, toda tinta
livros não darão nunca vislumbre do sangue e
lágrimas derramados. Todo tilintar ouro ganho
por vencedores batalhas é rumor ínfimo ante
clamor, gritos, choros dos vencidos!
Não bastam medo á morte e desconhecido,
por que acrescentar medo aos próprios irmãos?
APÁTRIDAS VIETNAM
Navio apátridas que nenhum país recebe.
Como sua âncora
Pés humanos que nele estão
Nenhum solo pisarão.
No entanto vivem no mar que não tem fronteiras,
mar que aceita tudo: fezes, sangue, suores, lágrimas,
corpos e, mais que a terra, até o último suspiro
dos afogados.
Sol aumenta com sua nitidez magreza daquelas
faces torturadas.
Luar ao tocar peles cor da fome aumenta sua palidez
Nenhum animal é apátrida em seu habitat.
Homem o é em seu planeta e no além-túmulo.
DESAPARECIDOS GUERRA
À Lucy Fasolla
Mães tiveram filhos roubados campos concentração,
Perseguidos guerra cada parente diferentes continentes,
Irmãos, esposos separados mudando de nome e pátria...
20, 30, 40 anos enfim revê-los!...
Expectativa cada porto, aeroporto, estação de trem...
Mãos se torcem nervosas se aquecendo pro carinho...
Irmãos, esposos num só abraço
Querendo ser um único ser,
Mudos sem dizerem uma só palavra
Porque com tantos beijos bocas não podem falar...
Torrente lágrimas dos pais
Ante filhos após tanto anos...
Lágrimas cresceram como eles...
CIDADE BOMBARDEADA
Cruzes no céu: aviões. Depois cruzes no chão...
Hélices destruidoras ceifam aves
Que inspiraram vôo!
Ruas sem casas, calçadas destruídas:
Somente olhar pode pisa-las...
Casas sem janelas...
Seres as abriram pro céu admirar, não suplicar!
Sem paredes... sustentaram retratos, lembranças...
Agora lembranças de guerra!...
Cemitérios revirados covas desfeitas...
"Terra lhe seja leve"!....
Não lembram o que fazemos sobre terra!
QUANDO VOLTAREM DO HORROR
Os que lançaram flores sobre tropas partindo...
Lançá-las depois sobre covas!
Os que cegos nunca mais lerão "Ordem e Progresso"!
Nunca mais olhos andarão á frente do corpo...
Os que sem pernas projetarão no chão pátrio sombra disforme
Mesmo chão nunca pisarão!
Os que sem braços, sem mãos (se apertaram na partida!)
Noivas, nunca mais vereis alianças!
Nunca mais mãos juntas orarão pela paz dos povos!
Os que surdos não poderão ser solidários
Ouvir dor dos companheiros!
Os que loucos
Contagiarão parentes loucos de dor!
Os que felizes ficaram mortos
Tendo à cova bandeira-mortalha, orgulho!
Morta quanto eles: bandeiras vivem somente
Quando tremulam ao vento!
CARTAS DE GUERRA
"Escrevo esta... " "Adeus, beije meu filho..."
"Se voltar vivo..." "Senhora, lamento informar morte..."
Escritas por mãos trêmulas
Lidas também por mãos a tremer.
Escritas em trincheiras escuras
Lidas talvez em cidades sem luz bombardeadas.
Rabiscadas sem jeito sobre pernas...
Joelhos se dobrarão longe
Agradecendo a Deus por sua notícias...
Letras cruéis! Molhareis papel e olhar que vos recebem!
ABRIGO ANTIAÉREO
Alarma! Mulheres, velhos, crianças...
Horror! Pressa! Angústia!...
Chegar abrigo antes bombas!
Os que foram interrompidos no abismo do sono
Verão outro abismo: cratera das granadas.
Os que ânsia fuga lamentaram descer tantos andares
Os acharão rente chão: edifícios destruídos...
Os que fugiam ao frio junto lareiras
Terão lareira maior: lares incendiados...
Os que na precipitação mal podiam abrir portas
Não as abrirão mais: casas arrombadas...
Amantes inconcluídos hora do amor
Acharão finalidade do seu ato: morte.
Os que interrompidos em meio oração
A ouvirão concluída
Em lábios dos que oram por estarem salvos...
ÚLTIMO DIÁLOGO
- Partes pra guerra, filho... não posso chorar nem rezar por ti!
Vais matar filhos doutras mães...
- Ninguém mais que eu sabe tão grande teu coração:
O senti ó mãe dentro teu corpo!
NATAL 1914 1a GRANDE GUERRAS
Alemães entoam cânticos natalinos.
Franceses também respondem cantando.
Saem de suas trincheiras
Se abraçam, brindam, em congraçamento...
Após meia-noite recomeçam luta.
Depois do corpo a corpo dos abraços, cumprimentos
Corpo a corpo com baionetas...
Ninguém sobreviveu.
Sobreviveu um segundo da história humana
Em que a razão superou a bestialidade...
BATALHA NAVAL
Salamina Trafalgar Okinawa... vencidos, vencedores!
Tudo passa... somente resta mar acima deles
Apesar todo sangue bebido, eternamente azul...
DACHAU
Enforcar criancinhas...
Quantas lágrimas desceram
Quando desceram corpos enforcados?...
Mandar adultos ao banho... despindo almas de corpos
Em vez água chuveiros jorrar gás!
Separar mães de filhos! Homens de esposas!
Esterilizar seres pra não reproduzirem sua raça!...
O que fizeram dos despojos vítimas? Ornatos!
Cinzeiros, bibelôs de ossos humanos, abajures de pele humana...
Por que o mal ornato milenar do Homem?
Ó Cristo, vieste ao mundo era errada!
Ó Deus, em pessoa deveríeis vir... não mandar filho!
CRIANÇAS AFRICANAS
Guerrilheiros roubam mantimentos
Matando aldeões.
Pais mortos, sem lares, sem proteção
Mutilados por minas, balas
Crianças fogem através florestas
Em busca refúgio outros países.
Muitas devoradas por leões, crocodilos...
Famintos alimentando animais famintos...
Quantos milênios passarão
Pra sabermos
Em que lado ficou a racionalidade?
PARTIDA GUERRA
Quantas vezes mesmas cenas na História?
Agonia, abraços, soluços...
Ó mães, esposas, crianças!
Olhos de tanto chorar ficam vermelhos
Pressentindo sangue que virá!
Mães em meio multidão agarradas aos soldados
Sem falar nem orar totalmente mudas!
Que falar no instante da partida
Quem esperou nove meses
Dizer três sílabas: "Meu filho!"
Navio parte... ó soldados
Debruçados no convés contemplais os que ficam
Acenando lenços mal acenados
Porque úmidos...
CAMPO BATALHA
Silêncio. No alto Lua
Alumiou Canes Marengo Verdun Stalingrado!
Bandeiras rasgadas no chão
Fuzis quebrados, canhões desfeitos, tanques retorcidos...
Destruídos em pulsos mortos
Armas piores: seus relógios...
Estilhaços da noite: estrelas...
Sobre estilhaços da humanidade: cadáveres
Vendo noite pairar sobre vós
Penso noites de ternura, amor
Pra vos gerar, mortos de guerra!
FUGITIVOS
De campos concentração, guerra, ideologias, ódio, raças...
Fugir! Se esconder floresta, montanhas, costa deserta...
Última esperança, último trem, última nave...
Os que noite fechada - Inverno! Neve cai! Vento ruge! -
Acordaram pro pesadelo!
Os que nem puderam se despedir
Mãos ocupadas segurando fuzil, criança, última mala!
Os que na pressa fuga somente roupa do corpo
Não tiveram nem lenços pra dor!
Os que no caminho enterraram ser amado:
Orações pros mortos servindo também pros vivos!
Os que nunca pensaram fios destino
Gerassem fios arame farpado!
Os que morreram último instante um pé na liberdade
Porta aeroporto, marco fronteira, beira praia!...
Escaparam chegando fronteira maior.
RETIRADA VENCIDOS
Fugas pelas estradas inverno frio!
Canhões estrondam! Aviões zunem!...
Sangue em neve parece
Sangue em ataduras brancas dos feridos...
Vencidos! Filhos fugiram sem pais!
Soldados sem superiores! Mulheres sem esposos!
Noiva sem saber do noivo, se morreu!
Os que marcharam cabisbaixos olhando chão
A perguntar aos pés que rumos buscavam!
Os que não contemplaram céu pra suplicarem
Estava negro sob fumo destruições!
Os que levaram mutilados nos ombros!
Os que carregaram macas com passos tardos
Iguais batidas corações de feridos sobre elas!
Os que morreram na confusão sem serem notados!
Os que nasceram na derrota... ó bebê tirado à pressa
Por mãos sofredoras marcando já seu destino!
Ninguém ouviu vagido sob canhoneio, granadas!
Balas atingindo recém-nascidos:
Cegando olhos que ainda não viram.
As que mães curvadas filhinhos às costas
Foram menos infelizes
Por terem corpo entre dois corações!
ÚLTIMA GUERRA
... então cansados de seu cérebro criaram um
eletrônico que pensasse por eles ... Voltaram à
barbárie! Nada germinava no chão planeta
destruído! Peixes nem azul habitavam
mares! Também céu negro (sóis eram mortos)!
Ó Deus por que destruir mais fácil que criar?
Talvez temendo um dia obra se voltasse contra Vós
Ou entediado rápido a pudésseis acabar!...
Terra sem vida rolava silêncio Infinito!
Uma coisa somente restava do que fora: a
forma esférica do Nada!
LAVRADORES
Sois chão da História
Fazendo refazendo vosso trabalho ante guerras
Ontem patas cavalos.
Agora vos imitam: plantam minas, bombas são arados.
Noutros seres mãos são nobres: seguram gestos.
No lavrador igualam pés em se sujarem de terra.
Ah quem não sente em vossa feição ingênua triste
Marca do desterro
De quem viveu milênios à beira civilizações?
Da quem olha pras cidades - como olhou sempre pro tempo -
Esperando deles graça, compreensão?
Curvados aos poderosos
Ó mais humilde dos homens
Curvados sempre pra semear e colher!
CAMPO REFUGIADOS
Pátria, parentes, dinheiro, malas, roupas ... tudo perderam.
Vagam pelos acampamentos olhar absorto
Dos que só miram o passado e o distante.
Trêmulos oram sob trêmulas lonas que os abrigam.
Que mundo não esqueça seres que só vivem de lembranças.
Recordar é viver duas vezes.
MERCENÁRIOS DE GUERRA
Os que juntam mesmo bolso balas e moedas
Os que sem pátria têm todas pátrias...
Os que doença incurável perseguidos pela morte
Inverteram papéis: a perseguiram...
Os que deixaram prisão:
Se sentiram mais livres nos campos batalhas ...
Os quase suicidas:
Sem coragem tirar uma vida
Com coragem tirar muitas vidas ...
Os que sem ninguém no mundo
Curaram sua solidão no rumor batalhas ...
Os que loucos não podendo matar sem crime
Buscaram crime sem castigo ...
Os que amores fracassados
Lutaram contra outros rivais ...
LEMBRANÇAS VETERANO
20 anos! ...
Explosões! bombas! matraquear metralhadoras!
Desembarque! ronco aviões! canhoneio!
Companheiros caindo ao seu lado! ...
Agora, ondas, vindes suaves acariciar
Brancura de paz d'areia ... desleal: quantas minas escondeu!
Cruzes soldados mortos de tantos povos!
Ingleses russos franceses americanos ...
Falam agora esperanto.
Aqui, ali vestígios do ódio: crateras bombas.
Civilização tropeça nos buracos feitos pela guerra.
20 anos! ... te sentes vivo, herói!
Quantos guerreiros, medalhas mar tragou!
Mar condecorado pela guerra.
PACIFISTA
Eras contra violência, recusaste ir
pra guerra, Noiva te abandonou. Ela amava
mais a pátria, tu, a humanidade. Amigos te
desprezaram. Patrão te despediu. Teu irmão voltou
da guerra cego, não mudo: não mais te falou.
Aprendeste álcool que desce pela garganta
nos desce também: preso ébrio nas ruas
outros párias recusaram ficar mesma cela
contigo. Desespero quiseste te matar: eras
contra violência. Dize aos que heróis
voltaram á vida civil na ebriez da vitória,
festas da paz! Nunca tiveste trégua, nunca
tiraste farda.
DESFORRA
Armas como arados revolvem terra sem dar frutos,
A qualquer ponto ponteiros escoltem suas sombras
Bússola ou relógio
Milhares homens são assassinados.
Por que tanto afã em nos destruir mutuamente?
Por que fúria em matar tantos seres?
- Porque morremos ...
SOLDADOS SEM GLÓRIA
Os que morreram guerra
Último minuto última bala ...
Conheceram paz antes de assinada!
Os que bombardeio perderam sustento:
Cão cego sobre cadáver - seu dono, seu guia -
Lambendo olhos que já foram dele ...
Os que se mataram ... longe pátria extinta
Parentes todos mortos
Sós outro continente, sós num quarto!
Matar-se, ser cúmplice de Deus
Nenhum ato tão cheio de vida:
Não há escolha após morte ...
Os que espiões foram fuzilados
Amarrados em postes olhos vendados ...
Olhos que roubaram tanto pros inimigos!
AMOR DE GUERRA
Ambos moços belos saudáveis!
- Eu te amo! ... - tu me amas! ... amor eterno!
Depois partida pra guerra.
Beijo mais demorado, abraço mais apertado,
Lágrima sua molhando rosto dele.
Como batedores, abrindo caminhos no infinito
Pra preces e esperanças:
Silvos de trem que parte levando-o.
Às tropas que partem
Milhares mãos se agitam; mãos de náufragos
Talvez querendo Deus leia nelas seu destino.
"soldado no ... desaparecido território inimigo" ...
buscar o amado noutra terra ... 5 anos depois!
Está vivo! Encontra-lo enfim!
Decepção, tristeza do amor perdido embora achado!
Casado com outra ... achara lar, proteção entre
Ex-inimigos! ...
Ela se despede : diferente despedida passada !
Ela parte pra guerra interior...
Seu adeus solitário é mais perdido
Que quando se perdia outrora
Entre milhares adeuses.
GRÉCIA 1946
- Marujo, traze chocolate, açúcar, pão!
Tenho mãe ... será pra ti solteira ...
Tenho irmã bonita ... vens de longe
América paz felicidade!
Ó ruínas ... mendigos aí pedem
Entre meditações, brilho passado!
Aproveita solidão Acrópole
Me ama então! Aqui! Onde amaram ninfas, gênios ...
Vê! Estátuas de heróis ... mais heróis
Depois de balas, bombardeios ...
XXX
Soldados! Pensai no "front"
Nos que ficaram atrás, desprezados de guerra.
Doentes, mutilados
Feridos sem lutar, heróis sem medalhas!
Aflição dos que têm comunicar morte a outrem!
Solteironas tecendo bandeiras em vez enxovais!
Prostitutas madrugadas frias
Sentindo mais solidão... ruas sem homens!
SOLDADOS!...
Soldados! Pensai no "front"
Nos que ficaram atrás, desprezados de guerra.
Doentes, mutilados
Feridos sem lutar, heróis sem medalhas!
Aflição dos que têm comunicar morte a outrem!
Solteironas tecendo bandeiras em vez enxovais!
Prostitutas madrugadas frias
Sentindo mais solidão... ruas sem homens!
CIDADE SITIADA
Quantas como tu ó Leningrado:
Atenas Cartago Jerusalém Bizâncio! ...
Bombardeio! Alarma! Pânico!
Homens fogem dos lares, sangue foge dos corpos
Casas fogem das ruas: ficam seus destroços ...
Horror da fome! ... milhares cadáveres ...
Quem os matou? - O inimigo.
Inimigo é a morte que sitia todos seres.
Quem manchou mais neve - esta
Velhinha encanecida moça cada ano:
Pés de lama dos dias comuns
Ou sangue da carnificina?
Que templos receberam mais orações:
Templos em ruínas em tempos de guerra
Templos perfeitos em tempos de paz?
Que mortos foram mais sentidos:
Os enterrados por vivos sem esforço
Os enterrados por vivos sem forças?
MULHERES NAS GUERRAS
Vejo-as como num filme através milênios
Saque cidades, fragor batalhas, retirada vencidos ...
(Mulher-cuja única ventura consiste em sofrer pouco!)
As que aumentaram com sangue menstrual
Sangue das chacinas,
As que aumentaram com abortos número de mortos,
As que violadas aumentaram sofrimento
Transformando prazer em dor,
As que além maldições aos inimigos -
As que tiveram filhos arrancados de seus seio
Pra morte ou cativeiro -
Amaldiçoaram própria maternidade!
OUTRA FOTO GUERRA
Foto gueto Varsóvia: junto alguns adultos
Uma criança levanta braços
Ante mira fuzis nazistas.
40 anos ... Onde estará hoje?
Certamente órfã:
Seus pais não sobreviveriam à chacina em massa.
Em que país se refugiou como milhares judeus?
Que lar, que asilo, que organismo internacional a abrigou?
Sob esses mesmos fuzis
Também levantamos braços ... de protesto e horror,
Também voltamos a ser pequenos
Por nos sabermos capazes de tanto mal.
DRAMAS INVISÍVEIS
O que não vem á luz de teus edifícios, metrópole:
Segredos acabam em segredo maior - a morte.
Ator envelheceu sem lar, sem filhos... Ex-galã!
Não mais papéis, aplausos, admiradoras!
Camarim deserto
Se contempla no espelho pra ter companhia...
Espelho-maior ator do mundo:
Representa qualquer papel...
Velhinha só, filha solteirona
Todo seu sonho: vê-la casada!
Com que ternura veste filha... talvez encante homens!
Antes que filha a vista à morte.
Freira perdeu fé... só em sua cela
Sem coragem pra deixar convento
Sem coragem pra viver no mundo.
Quando á noite tira uniforme
Sente seu corpo entre dois mundos...
Sentenciado morre na prisão
Sem ninguém no mundo...
Lhe fecha olhos
Carcereiro lhe fechava cela...
Prostitutas que não pegam um só freguês
Não tendo como pagar reles quarto hotel...
Por condescendência do gerente
Dormem nas escadas... menos pisadas que elas.
Casal emigrantes, sem filhos
Um temendo morrer deixando o outro...
Sós nas praças, mãos dadas, aconchegadas.
Com que ânsia vossas mãos se apertam!
Pra que aliança não saiam dos dedos... tal na viuvez.
Os que foram ricos, se arruinaram...
Sabem agora
Porque sua amante - moeda - tem duas faces...
A que noivou, casou, criou filhos, enviuvou
Sem vida inteira ter amado.
Sonhou tantos destinos antes morte!
Morte não necessita experiência da vida.
Chapeleira de cabaré cais do porto
Adotando filhos de prostitutas...
Consolar pranto de mães infelizes,
Ninar prantos de bebês insones.
Os que morrem sós sem ninguém saber
Os que policia arromba apartamento...
A vida notada pelo cheiro cadáver!
Morto abandonado:
Corpo inchado de nada...
Vede estatua da justiça
Vós que buscais justiça gratuita!
Lenço que tapa seus olhos não enxuga vossas lágrimas...
Único laço ela tem convosco: seus pratos vazios...
CONQUISTADORES METRÓPOLES
Extáticos contemplando monstro de asfalto
Os há em todas metrópoles mundo!
Vêm do interior... ó campos abandonados!
Sonham fama, riqueza... te vencer, metrópole!
Acabam no suicídio
Ocupando cantinho teus jornais
E cantinho teus cemitérios!
Outros vagam ébrios em teus becos noturnos
Tontos ainda da tua vertigem!
Quantos naufragados mar de asfalto
Catres sujos, bordéis escuros
Somente são felizes quando lembram dia da chegada!
DESPEJADOS
Drama de todas metrópoles!
Fora de casa malas á mão... parados
Apesar lhes servirem todos rumos.
Contemplando suplicantes último teto - céu -
Trazendo seu infinito pras ruas: agora sem fim pra eles...
Somente vós reproduzis angústia milenar
Homem expulso do Paraíso!
CASA COLETIVA
Casa de vencidos de tantas metrópoles mundo!
Velhas, escuras, sótãos, escadarias ...
Camelôs, viciados, jogadores, homossexuais ...
Sós num mesmo quarto sujo
Desconhecendo aqueles com quem dormem!
Ignoram vezes própria idade... se é vivo algum parente...
Não recebem cartas, não têm retratos, nem lembranças...
Não donde vêm maior que nada aonde vão!...
Quando morrem ninguém reza por suas almas...
Não necessitam: seres assim íntimos de Deus.
Porteiro desce com corpo. Enche ficha policial.
Á pressa vai arrumar quarto do morto...
Vencidos nunca faltam nesta vida!
VOLTA DO "TROTTOIR"
Chove. Vais só pelas calçadas molhadas
Pro teu quarto casa coletiva.
Pões na janela sapatos úmidos a secar
(te levam a toda parte e a nenhuma parte).
Os usarás amanhã outra vez.
Ah lembras outrora quando punhas
Sapatinhos pra papai Noel!...
Criancinha do vizinho chora acordando pais
E operários que levantam cedo pro trabalho.
Te sonhas criança, moça, pura!...
Ouves canção ninar da mãe pro filho
Fechas olhos... feliz pela primeira vez
Não dormires com nenhum homem.
Mãe ignora seu canto adormece criança
E um passado de criança ao mesmo tempo.
NATAL DE PALAVRAS
Crianças põem sapatos pra Papai Noel.
Longe guerra cidades destruídas
Sapatos vazios de crianças.
Ó feios, mutilados, doentes, loucos!
Oh palavras párias não tiveram!
"Meu amor!" "Meu filho!" "Querido!"
"Bom natal!" "Feliz ano-novo!"...
Os que vivem embaixo pontes, praças, praias...
Sós, abandonados!... os que dormem, acordam
Sem nunca ouvir "Bom dia!" !Boa noite!"
ÚLTIMO BORDEL
Portas entreabertas pro pecado se esgueirar.
Atrás venezianas olhos pareciam
Colcheias em pautas musicais.
Até polícia acabar todos bordéis.
Sem saberem aonde ir desesperadas
(Mesmo antes, elas nunca souberam onde ir)
Algumas infelizes se suicidaram.
Sirenes rabecões que as levaram
Não podia lembrar pra elas
Sirene das batidas policiais que as expulsaram.
Engavetadas necrotério
Como suas fichas em arquivos policiais.
MÃES TRABALHADORAS
Ó mães sem amor! Sós, sem homens, ninguém.
Insones de aflição passais noites acordadas
Pra que olhos possam ter mais lágrimas.
As que passam vida poupando aos filhos toda dor
Pedindo a Deus para si o sofrimento deles
Desejariam ser imortais pra lhes poupar própria perda.
Garçonetes, lavadeiras, criadas, operárias
Saindo antes aurora (quantas com esse nome)
Deixando filhos sós, doentes
Costureiras cochilando serões sobre máquinas
Temendo seu rumor acorde criancinhas.
Serventes limpando escadas pros filhos subirem na vida.
Bailarinas "dancings" chegando casa madrugada
Inda com hálitos beijos do pecado
Redimidas beijando filho que dorme.
Telefonistas, bilheteiras, manicures em sua solidão:
Mil vozes que não lhes falam!
Mil mãos que não se apertam!
DESEMPREGADOS
Esposa aflita, filho doente, aluguel atrasado...
Ah drama dos que lêem cedo
Anúncios jornal como um horóscopo!
(quantas vezes jornal serve de cama!)
Cansados sentam bancos praças
Sem vintém pra comer ou condução
Olhar vago, sós, pensando destinos!
Enquanto à sua volta
Multidões pisam o silêncio...
Os que desesperados se lançam dos arranha-céus!
Conseguem no jornal seu anúncio
Comovendo patrões tardiamente!
Os que nervosos torcem mãos
Como a espremê-las porque vazias.
Ou envergonhados delas
As escondem em bolsos também vazios.
PIVETES
Crianças que roubam... roubaram antes sua infância.
ATLETAS
Corrida, nado, salto, peso...
Ir além do que o corpo pode dar!
Tirar mais vida da vida!
Igual buscar recorde da imortalidade!
CAIS
Teus os mendigos piores
Prostitutas mais pobres feias velhas!...
Ébrios vagabundos dormem sobre fardos ante mar...
Mar para lá e pra cá ébrio eterno!...
Marujos! Trazeis o poéticos, o lendário!
Outras terras outros povos outras línguas!...
Encheis de riqueza, sonho
Passado vazio dos infelizes!
Mendigam ali porque sabem
Os que vivem cercados tanto tempo
Pela grandeza dos elementos
Vêm transbordantes de amor, anseio
Pela paisagem humana!
ABORTADOS
Estouro multidões saindo dos trens!
Cada vez menos espaço, mais aperto!
Dentro multidões outras existem...
Ó drama consultórios médicos abortos clandestinos!
Casais vivem num quarto: não tem lugar para um filho!
Os que não podem ter lar: solteirões viciados!
Mocinhas amanhã amantes
Vendo anos fugirem sem casarem!...
Ah nunca vos vereis no rosto dum filho, nariz dum neto...
Morrereis, humanidade, levando convosco
População que nunca terá censo!
PÁRIAS DA SECA
Céu tórrido queimou próprias nuvens.
Leito rios, secos beberam própria água.
Seres esqueléticos: corpo comeu próprios músculos.
Chão se abriu pra devorar sua vegetação:
Cheio de rachaduras.
Filhos dessa terra? Parias sem pão!
Pão - primeira sílaba de todas palavras!
Sem roupas - corpos assim mais perto do pó!
Descalços -
Ninguém lhes ouvirá passos quando se revoltarem!
Buscam metrópoles!
Farão mais sombra na sombra asfalto
Separados dos seus irmãos
Pelo vão grades da prisão
Pelo vão persianas dos bordéis
Pelo vão dedos .. que mendigam!
Ao longe altos edifícios
Lembram castelos medievais doutros servos ...
OPERÁRIAS NOTURNAS
Vossas aflições, cansaços
Sustentando lares míseros
Mães viúvas, filhos naturais!
Sem leis no trabalho: exploradas
Sem leis no amor: amasiadas.
Ó mulheres sem homens!
Sem pais, irmãos levados pela morte
Abandonadas por esposos infiéis, sedutores ínfimos!
Compreendo vosso amor pelos patrões:
Únicos homens que vos restam!
Ó irmãs noite alta caminho do lar
Ruas despovoadas subúrbios escuros
Quanta vez sujeitas ao crime, á perdição!
Mesma fome (que vos possui) arma criminosos
Nas sombras matam pobres
Um dia às claras ferirão ricos...
Sós, cansadas longa volta ao lar
Talvez sonheis porque quase a cochilar
Sonhos cor-de-rosa... casinha própria, amor, segurança!
Não sonhos vermelhos de revolta!
DESPEDIDO
Quantas vezes temeste? Perder emprego
Incerteza conseguir outro trabalho ...
Quantas vezes angústia te possuiu
Quando ias pros serões noites desertas?
Noites roubadas à esposa, filhos ...
Despedido! ...
Suor velho não mais lubrifica máquinas!
Onde esquecerás tantos anos?
Sirene fábrica levando trabalho terreno ao céu!
Máquinas tuas amigas! Manejavas manipulavas apertavas ...
Ah toda essa conversa de gestos como um mudo
Do homem com o inanimado!
Relógio-ponto - próprios dedos imprimiam
Impressões digitais do tempo.
Trabalhadores de mãos calosas
De tanto segurarem a vida.
VELHA CRIADA
Vida inteira servindo!
Oh essas destino faz pobres, órfãs
Pra habituarem não ter futuro!
Envelhecer da cozinha para um quartinho
Onde se lançam tralhas, coisas inúteis ...
Envelhecer sem nunca nada teu:
Filhos, amores, lembranças.
Envelhecer! Passos trôpegos: chão te puxa apressado ...
Teus olhos tanto os clareou chamas fogão -
Teus ouvidos - tão alertas às ordens -
Não verem, não ouvirem mais:
Mundo julgavas tão grande vir menor ao eu! ...
Quantas como tu passaram pela Terra
Escravas outras épocas...
Ó seres que tanto obedecestes! Servos melhores de Deus.
LAVADEIRAS
Ó sofredoras através séculos
Enxaguando púrpura dos poderosos!
Em vós lágrima corre das mãos!
Ó corpos mal feitos por baixarem tanto
Andarem curvadas sob peso roupas!
Tocar tecidos nunca vestireis!
Quantos segredos nesses ventres torturados!
Abortos por excesso trabalho, bebês mortos de fome...
Oh não poder fazer enterro
Os enterrar ocultamente no quintal favela ...
Quanta vez a estender roupa branca sobre relva
Pensais ver mortalhas sobre vossos filhos!
CLÍNICA SUBURBANA
Consultórios estreitos, letreiros baratos, ruas pobres ...
Doentes desempregados, mães solteiras, bebês mortos cedo ...
Ó altruístas médicos dos subúrbios!
Auscultando pobreza unida à dor.
Quanta vez vosso suspiro de desânimo
Previu último suspiro dum pai
Deixando filhinhos no abandono?
Quanta vez roupas gastas, remendadas
- Abristes para examinar corpos sofredores -
Servirão inda pra vestir cadáver?
Quanta vez
Gotas lágrimas foram gotas de remédio? ...
POR QUÊ?
A Mr. Syed Ameeruddin
Origem de todas palavras:
Por que Deus? Por que a morte? Por que a criação?
Por que, não sendo eternos,
Nos foi dado contemplar a eternidade?
POR QUÊ(II)?
Grotescos, disformes sem braços, sem pernas,
Derrames, cânceres, enfartes, hemodiálises,
Loucos: cegos sem luz na mente,
Cegos: condenados às trevas antes da morte,
Órgãos extirpados, respirando em coma,
Paralíticos trêmulos se arrastando...
Por que tanta tortura
Para ingressar no nada?
Por que o altruísmo da longevidade,
Não o egoísmo?
Se eu morrer antes
Quem cuidará de meu filho paralítico?
Quem cuidará de meu irmão mongoloide?
CEGO ATEU
Cego sem bengala tateando sem chão no Infinito
Órfão de Deus, sem rumo a tomar.
Pena de morte, eutanásia, aborto, suicídio...
Qual certo, qual errado?
Como suportar ver mesma jaula
Crianças abandonadas,
Mulheres se prostituindo,
Homens presos,
Irmãos manicômio?
Ris do louco falando sozinho?
Fazes o mesmo quando rezas...
Almejas eternidade...
O nada também não tem princípio nem fim.
FAVELAS
Todas vossas metrópoles as têm, Deus!
Hong-Kong Tóquio Nova York
"Shinkava" "Bronx" "Soho" "Penha" ...
Sobre morros, terrenos abandonados -
Como vosso palácio Terra - não têm alicerces
Ó casebres rudes de madeiras, telhados frágeis!
Favelas sem fechaduras: morte e fome entram sem bater!
Sem luz: noites mais longas, inverno sempre!
Favelas sem números onde crianças nascem ...
Números nas prisões!
VELHA BAILARINA DE "DANCING"
Poucos dançam contigo, teu sustento.
Enquanto outras mais moças dançam no apogeu.
Isolada em teu canto ouves música
Nascida há tantos anos quando eras rainha!
Lembranças vêm! ... Homens se matavam p or ti!
Presentes! Restaurantes luxo! Carros!
Madrugadas boêmias! Carnavais! ...
Quando fim noite partes só
Vês o silente e o escuro - insinuações da morte:
Telefone te chama menos, menos palavras de amor
Quarto pobre de subúrbio mal iluminado ...
Joias, anéis ante alicerces rachados -
Tuas mãos outrora belas -
Fugiram pro penhor atrás outras mãos ...
Gastaste tanto beleza, mocidade ao som orquestras
Pautas musicais mudaram pro teu rosto: rugas.
Tripudiastes tanto pés sobre a terra ...
Agora ela se vinga!
SUBMUNDO
Ladrões ínfimos, cáftens, alcaguetes
Velha aluga quartos suspeitos
Toxicômanos, "bookmakers" ... seres apagados
Quantos subiram na vida
Um só degrau - o da sarjeta?
Vossos crimes nem tiveram relevo.
Mundo nem sabe exististes.
Nem fostes como rios
Que nas quedas têm grandeza.
"PÃO-DE-AÇÚCAR"
lá embaixo, metrópole, pareces pequenina!
Mar te rodeia... mais sábio que terra
Nada constrói á sua superfície.
Tudo afoga: seres, naves, ambições...
Até paisagem dentro dele.
CATADORES DE LIXO
No lixo
O que alma humana deixa sem saudade...
Como eles catadores de si mesmos.
CHUVA METRÓPOLE
Todos correm abrigos, táxis, lares...
Ruas ficam vazias como nós.
Quantas eras molhaste? Quantos passos apresaste
Ó conhecedora, mais que guerra, da energia humana?
Quanto encontro desfeito! Quanta ação interrompida!
Quantas palavras eliminaste! Quanto História adiaste!
ÓRFÃOS METRÓPOLE
Órfãos metrópole! Sem parentes nem asilos
A vagar sem rumo ruas!...
Ó criancinhas abandonadas
Dormis nos pedestais estátuas heróis pátria!
Outras estudam na escola sua História!
Em vossos farrapos, seres pequeninos,
Nunca sabereis a miséria nua, esfarrapada
Veste uniformes nos homens pra matar!
SUBÚRBIO
Quando se morre toda rua sabe...
Trens passando fundos de quintais
Seu silvo lembrando cais, saudades, despedidas...
Casas, jardins, vilazinhas, coretos...
Festas da igreja bailes de bairro, circo...
Namoros nas praças, conversas nas esquinas, bares...
Sempre poesia nos subúrbios!
Tudo chega primeiro ao centro metrópole:
Luxo, progresso, tumulto!
Passado quando deixa ruas
No subúrbio se demora mais!
PÁRIAS
Ó irmãos das ruas!
Os que igreja mendigam a nós... que mendigamos a Deus!
Mendigos modelos de pintores: felizes vendem sua pobreza.
Cego nato toc-toc bengala
Auscultando chão sobre cegos pela morte.
Cegos, de olhos boêmios que só conhecem a noite.
Louco sujo falando só.
Perneta somente tronco andando somente com mãos.
Ébrio caldo esquina.
Velhinha apanhando restos restaurantes.
Pária reside embaixo ponte.
Coitado anônimo morre na rua
Outro anônimo - povo - lhe põe velas.
Vagabundo dormindo banco de praça.
Ex-sentenciado sem lar, sem emprego...
O que vive cais num barco abandonado
Vencido na luta com semelhantes
A lutar com outros seres no mar.
Homossexual velho, só, quarto pensão barata,
Não aumentou mundo com filhos,
Não o diminuirá ao sair.
Os sem proteção, regiões desconhecidas
Indígenas despojados por brancos fogem pras selvas.
Selvas cada vez menos porque fogem da civilização
Emigrante convés navio
Só noutra pátria, sem ninguém
Contemplando horizonte - emigrante eterno.
Os que mesmo soltos e com alta
Não querem deixar hospital ou prisão
Por não terem ninguém ou onde ir.
Deus vos esqueceu!
Não há memória pra quem criou do nada.
CASA PENHORES
Anel diplomação: provinciano fracassado
Pais deram sonhando futuro: vencer na metrópole!...
Aliança solteirona: lembrança admirador passado
Quantos anos! Noites de amor, mocidade!...
Violino músico desempregado: mudo
Pra que seu dono falasse ao senhorio:
Aluguel quarto pobre...
Roupa de gala imóvel no cabide: velho aposentado
A balançou outrora em danças brilho salões...
Brinquedo - ah pai aflito tirando-o noite alta
Escondido do filhinho...
Sereis vendidos! Dispersos noutros donos
Revivereis talvez mesmas dores
Lembrareis no apogeu origem pobre.
Mas brinquedo terá dom de ser novo como ontem.
CAIS ANTIGO
Quanta vida séculos atrás!
Abraços, adeuses, beijos, emoções, saudades...
Deserto, silencioso
Hoje pranto do mar soa mais triste
Porque ninguém chega mais, todos partiram...
RUAS
Amei todas! Novas, antigas, ladeiras, becos desertos
Becos tão pobres onde pobres não querem pedir.
Ajardinadas subúrbios pobres.
"Riachuelo", "Arcos" "Penha"
E endereço do passado: meu "Catete"...
Ó ruas meu pai coitado pisou tanto
Lagar onde tirou suor do pão!...
Tocamos mais o mundo pelos pés!
NECROTÉRIO
Os que morrem mesas necrotério
Esperando alguém reclame corpo.
Os sós, sem endereço, sem parentes
Os que nunca souberam própria idade, próprio nome...
Os que nasceram abandonados porta asilos
Esperando alguém os reclamasse...
Não basta milenar desgraça
Homem só no cosmo não conhecer seu Criador
Há quem nasça abandonado ruas
Sem nunca saber quem são seus pais!
"QUE MUNDO É ESTE?!"
Sêneca perguntou um dia horrorizado.
Mundo em que se entra inocente, se sai condenado...
LAPA
Hotéis suspeitos, pensões baratas, cabarés.
Cada pária caído sarjeta:
Prostituta antiga, ex-caften, um viciado...
Teus mendigos ó Lapa não te abandonam!
Teu brilho noturno
Luzes bares, música "dancing", cintilação joias
Lhes ilumina um pouco do passado,
Quantos outrora noites boêmias
Atravessaram teus "arcos" como arcos do triunfo!
MENORES OPERÁRIOS
Vazio lar dos pais, vazio céu
Sem sonho das pandorgas de seus filhos.
Longe no trabalho duro das fábricas
Soltam no ar outras pandorgas:
Fumaça de suas chaminés.
NESTA RUA DEMOLIDA
Nesta rua demolida pra dar lugar novas avenidas
Morou fulana... onde estará?
Casas e seres que a habitaram
Sumiram no mesmo pó das demolições...
Te invejo, minha cidade!
Envelheces através do novo...
Tantos milhões passos dados... nenhum para trás...
Tantos milhões rostos... nenhum igual ao do passado.
PRISÃO
Prendem passado fugitivo
Nas listras número do preso.
Listras uniforme prendem corpo.
Grades listram céu que contemplam.
Longe metrópole tumultua.
A vislumbram somente!
Recortes jornal, vozes rádio, cartas...
Ó noite como te anseiam!
Roubas dias! Prendendo olhos no sono
Igualas metrópole e prisão.
Enchendo vão das grades com seu vulto
Quanta mãe chorou filho condenado!...
Ah ninguém lembra no horror celas
Estupros anormais, masturbações doentias
Jogo, suborno, entorpecentes...
Seres míseros! não dez, vinte, trinta anos
De milênios vossas penas:
Voltastes á fera inicial.
NOITE METRÓPOLE
Ruas silentes, vazias
Calçadas molhadas: choram sua solidão
Apitos polícia ninam trevas.
Corredores silentes hospital
Passos macios das enfermeiras
Não acordam doente deu último suspiro...
Moços trabalhadores vão escola noturna
Manchar livros com suor trabalho...
Trem se perde subúrbio longe.
Luzes apartamento se apagam
Porque inúteis não vêem futuro no sono.
Quantos essa noite dormirão para sempre?...
Em tudo um ar sobrenatural
Vago, lúgubre, fantástico...
Noite, todos dormem tua hora!
És misteriosa porque menos vivida...
HUMANIDADE TRABALHADORA
Vida emprestada cheia de empréstimos,
Trabalhar, casar, criar filhos, aposentar, morrer.
Obscuro esforço pra carregar gerações!...
Ó humanidade de sonhos simples
Não tiveste grandeza dos heróis
Nem queda trágica dos vencidos!
Como vossos subúrbios - parte maior das metrópoles -
Parte maior do rebanho
Deixais mais pegadas no chão da História.
CREPÚSCULO URBANO
Sirenes fabricas marcam fim trabalho.
Multidões saem lojas, escritórios.
"Rush" ! nas ruas mais roupas:
farrapos da túnica do tempo...
povo cansado, conduções lotadas...
por instantes todos sabem aonde vão.
N'horizonte Sol
Cansado dia inteiro do azul
Morre pintando-o doutras cores...
MÃES SOLTEIRAS
Ó garçonetes, caixeirinhas, empregadazinhas escritórios!
As sós noite alta janelas hospitais
Chorando filho estigma em tantas partes mundo.
Sem saber quando dor dum pobre se une à doutros pobres
Dramatiza História.
As que antes sedução foram seduzidas
Por teu brilho, metrópole.
As que caíram
Por vertigem de teus altos edifícios.
As que envergonhadas
Se esconderam embaixo terra... se mataram.
As que grávidas na prisão por matarem amante:
Ventres geraram morte antes da vida.
As que tiveram doar filho... as mais tristes!
Se ama mais ao que se cria que ao Criador.
Ó RUMOR SÁBADO FEBRIL
Ó rumor sábado febril!
Teatros "dancings" buates luzem!
Brilho noturno! Letreiros luminosos!
Amantes passam táxis
Bacanais secretas em apartamentos.
Saem dos escrínios, das urnas, das garrafas
Joias, fichas, vicio!
Os seguindo alma sai do corpo...
Quando pecado morre
Tem resto de sensualidade:
Lhe fecha pálpebras não noite velha, lutuosa
Porém aurora moça, radiante.
E os sós nos sábados modernos
Enquanto todos amam, dançam, se divertem
Os sem encontros, namoradas, visitas?
Os que fumam pra terem companhia da fumaça
Bebem pra falarem a si mesmos...
Nesse dia pra roubar lares vazios
Dois criminosos entram: ladrão e suicídio.
CENTRAL DO BRASIL
Multidões correm na vida que corre de todos.
No alto condenando o Tempo
Ponteiros relógio guilhotinam horas.
CEMITÉRIO
Nem moços nem velhos. Todos mesma idade.
CRIANÇA BALEADA
Jornal: "Briga bandidos subúrbio
Bala perdida matou criancinha.
Ninguém reclamou corpo necrotério."
Escreveis certo por linhas tortas.
Bala perdida achou corpo perdido.
CONSTRUTORES ARRANHA-CÉUS
Deixais camas madrugadas frias.
Insones em trens subúrbios longe
(Um dia tereis sono sem despertador)
Pra construir altos edifícios
Amanhã, rasas ruínas...
Levantais, acordais chão
Que busca sempre deitar.
Pedreiros modernos Pompeia!
Trabalhais com futuro nas mãos: areia e pó.
Primeiros a acordar
Pra construção do efêmero.
TRIBUNAL
Ó jurados, protegidos, amados
Como podeis julgar crime dos párias?!...
Os que sós vieram ao mundo
Abandonados lares estranhos, asilos
Sós cresceram sem rumo nas ruas...
Sós no Tribunal ninguém na assistência
Lamenta seu destino, reza por sua absolvição.
Sós um dia quando portas prisão se abrem...
Ninguém lhes abre braços á espera.
CHOFERES
Teus confidentes, metrópole! Sabem todos teus segredos...
Cicerones destino:
Seres aflitos, negócios, encontros amorosos...
Ah assistem de costas teatro humano!
Taxímetro - ao ser que se desfaz cada instante -
Cobrado cada minuto do drama.
Carontes ganhando óbolo de cada passageiro.
ZÔO
Homens e feras se contemplam
De jaulas respectivas.
Sem vós ó Deus pra que racionalidade?
Maior das crueldades
Haver seres únicos no cosmo
A sofrer por um Deus que não existe.
MANHÃ METRÓPOLE
Cais: guindaste parece levantar o Sol.
Abrindo pálpebras de tampas, cofres, caixas
Dinheiro acorda. Se veste de dedos, sai.
Multidões! Atropelo conduções! Tudo corre!
Chão onde esculpes tua velocidade
Gira espaço no mesmo ritmo milenar.
MADRUGADA DE ASFALTO
Inda noite, luto das cores, metrópole acorda.
Passos, máquinas, ônibus, trens... nasce rumor.
Tatear da bengala branca da cega civilização!
Garçons lavam restaurantes, bares semiabertos.
Jogadores passaram noite em azares jogo vão dormir.
Sono também jogo: cria ao acaso sonhos, futuro...
Jornais são distribuídos:
Depois encontro de manhã com nosso eu
Encontro com eu coletivo.
Frutas saem do silêncio da terra
Pro rumor mercados.
Fim bailes públicos casais vão hotéis suspeitos
Operários insones vão fábricas
Cruzam esquina com prostituta cansada.
Talvez filha de operário.
Outros irmãos em jejum procuram trabalho.
Ó mundo doente!
Nunca madrugadas da História tão povoadas!
ESTRELAS SOBRE O VÍCIO
Ó luz dos lampiões esquinas desertas!
Piscar convidativo das prostitutas
Ébrio se apoiando no poste
Beijos namorados, cópula lugares desertos
Prazeres homossexuais hotéis sujos
Fumaça, tóxico, álcool, cabarés baratos.
Menores criminosos... crime:
Crianças de dia ... trevas os disfarçam de homens.
Desvãos secretos vendem cocaína
Que prova felicidade arruína.
Fracassados em bar, mulheres sós
Esvaziam copos e almas.
Viela escura se assalta inocente...
Ó sestro milenar associar ouro e arma!
Trevas onde mal impera
Guardando fábricas, edifícios.
Vigias substituem Deus.
Por que, luz pura das estrelas, abrigas o mal?
Ah quem melhor que luz vinda de mundos remotos
Atravessando abismos mais negros
Alumiar abismo d'alma humana?
ODE AO RIO
No horizonte
Tuas montanhas grávidas de beleza.
Tuas baías - mãos côncavas -
Bebem mar infinito ...
Tuas ilhas: tesouros
Que oceano de sua profundeza traz á tona ...
Ó cidade maravilhosa!
Nunca a beleza com que te louvarem
Superará tua beleza!
RUA CORREIA DUTRA
Rua de minha infância, mocidade!
Casa onde vivi, brincadeiras outrora!
Onde estais amigos, vizinhos
Brinquei, passeei, conheci nessas calçadas? ...
Mais rápidos que todos transeuntes
Transeuntes de outrora passam ...
COPACABANA
Domingo de sol. Tudo desce á Terra!
Céu continua o mar
Arranha-céus continuam curva do horizonte...
Crianças jogam, mães brincam com filhinhos
Outros namoram, nadam, repousam...
Tudo vibra alegre, são!
Vida bela, exuberante!...
Impossível tudo siga pro nada...
Ah aprendêssemos do mar
Mesmo ritmo ante correr do tempo!
Tivéssemos humildade dele:
Cantar sua eternidade a nossos pés ...
ANCIÃOS DOS ASILOS
Anciãos dos asilos!
Vossos olhos vêem pouco ... se preparam pras trevas.
Vossas mãos trementes ... treinam pro adeus final.
Em vossas frontes rugas como cercas
Prenderam rebanho dos sonhos.
Só vós sabeis
Nada tem tolerância da morte que aceita tudo ...
Nenhuma hora tem mais minutos que última hora.
CAMPO DE SANTANA
Praça bucólica. Ancião abençoa árvore o ensombra:
Foi moça, deu bengalas pros velhinhos.
Mendiga contempla da ponte
Cabeça branca no lago.
Pensa tempo era moça, bela!
Cisnes passam também brancos...
Felizes porque indiferentes
Á imagem águas lhes refletem...
PRESCRUTAR DESTINO
Prescrutar destino meus semelhantes
Tão perto de mim nas ruas.
Pensar rumos, sonhos tem
Multidão correndo conduções.
Imaginar cada drama dos arranha-céus imensos.
Evocar edifícios antigos
Habitantes que partiram.
Lembrar o que foram na infância
Párias dormem praças...
Sentir em mim uma população!
Ninguém amou mais desconhecido que eu.
Ninguém mais preparado pra morrer.
AURORA NA BAÍA
Além cumes arranha-céus, antenas televisão
N'horizonte nasce Sol boiando no mar.
Única nave que não molha quilha
Nem perturba paz das águas com esteira.
Tudo brilha vasto, puro, azul!
Cada dia, Terra, acordas aurora
Cada dia acordo mais velho...
NESTE SEGUNDO
Neste segundo outras metrópoles
Milhões seres vibram, anseiam, tumultuam!
Somente uma vez na Terra e nunca os conhecerei?
E primeiros homens?
Ninguém mais perto verdade que eles.
E os que virão?
Quantas palavras dicionário
Morres sem nunca dize-las...
Convivemos com parcela!
Amigos, vizinhos, amantes, parentes...
Quem nos unirá em todas eras
Nos fazendo sentir toda humanidade?
MINHA METRÓPOLE
Quantas lembranças de ti, minha metrópole!
Neste edifício um nome de mulher...
Naquela esquina amigos, mocidade...
Neste beco brincadeiras infância...
Teu mar!... sentiu meu coração bater dentro seu!
Cada qual uma história, uma evocação!...
Ó memória mágico bom:
Ruas, bairros espalhados por ti
Me surgem perto uns dos outros!
Seres conheci dispersos pelos anos
Aparecem juntos como amigos!
Somente nela ó minha metrópole
Podem nascer á mesma hora
Tuas auroras e crepúsculos!
VELHA PROFESSORA
Velhinha, cabelos branquinhos
Refletindo giz que usaste tanto
Escrevendo números e letras...
Quem apagou números de teus anos
No negro quadro da existência?
CASAS, RUAS ANTIGAS
Ah calçadas doutros séculos! Calmas não tremíeis
Havia menos gentes, menos carros...
Fiéis a vosso tempo:
Carros não passam suas vielas estreitas...
Sobrados, escadarias, águas-furtadas
Calçadas rachadas, varandas coloniais
Ah coches, habitantes outrora!...
Como vos amo casas, ruas antigas!
Vossos dias apogeu se foram...
Vazias dos passos gerações passadas
Tendes mais humanidade em vós.
Vossas portas se abrem mais vezes
No ritmo crescente da modernidade.
Mais vozes, mais rostos... colhidos do ar:
Rádio, tevê, telefone.
Fantasmas da época
A vagar entre vossos fantasmas passados.
CORCOVADO
Sermão da montanha de pedra...
Imensidão... mar... horizonte...
Metrópole pequenina a nossos pés!
Embaixo daqueles tetos tanta agitação
Tantos anseios subir ante Infinito
Que nivela tudo.
Braços indicando imensidão:
Ó Deus a nos dizer
Não fez somente Homem à sua Imagem!
TRABALHADORES DESTERRADOS
Os que deixam lar, família longe
Trabalhar outro país, outra cidade.
Viver de esperanças, saudades.
Invejar caís, estações: ah os que partem!
Ter horizonte nas linhas das cartas
Povoando solidões de quartos baratos.
Vida inteira esperando encontrar seus entes caros...
Encontram Deus (na oração ou na morte).
PROSTITUTA ASSASSINADA
Ninguém reclamou corpo necrotério
Antes tão reclamado.
Ninguém nunca soube quem te matou
Solidão pior: ninguém saber que existimos.
Não soubeste se parentes inda viviam
Próprio nome usavas não era teu.
Não partilhaste amizades
Conheceste seres iguais a ti: somem sem notícias
Fregueses nunca mais vistos ao acaso ruas.
Prostituição amor-solidão:
Dois seres se unem nunca mais se vêem...
Não tiveste lar fixo
Quarto hotel, amanhã banco de praça...
Como todos seres
Exististe somente pra quem te matou.
DELEGACIA POLICIAL
Queixas crimes... gritos inocência...
Confissões... desespero culpados...
Quem perdeu mais?
O que perdeu passado ou o que perdeu futuro:
Criança inicia crime
Criminoso envelheceu nele?
Quem ilude mais:
Sedutor iludiu virgem cheia de ilusões
Cáften iludiu desiludida?
Quem vendeu mais?
Policial vendeu alma no suborno
Prostituta vendeu corpo?
Ah os que recolhem num canto
Padres, advogados, delegados
Segredos, vergonhas d'alma humana!
Ante desfilar tantas lágrimas
Dor, perdão, culpa, remorso, arrependimento
Tende a mais valiosa, a da compaixão
Que tem um pouco de todas!
ANÚNCIOS JORNAL
Asfalto faz com suas tintas suas manchetes
"Vendem-se, alugam-se casas..." plantas em letras:
chefes família correndo ruas... casas que nunca terão.
"Noivado desfeito, vende-se enxoval" ... sonho acabado:
lágrimas enxugadas por mãos sem alianças.
"Solteirão procura moça para casar" ...
ah solidão noites metrópoles:
abrir portas pro silêncio escuridão...
ninguém dentro receber em luzes.
"Empregos, precisa-se" ...
Colunas finas escondendo colunas grossas:
Fila milhares desempregados
Nas portas fábricas, escritórios,
Ó APOSENTADOS
Ó aposentados sem família
Anciãs sem filhos
Prostitutas decadentes
Fracassados sem amigos.
Estendendo olhar ás multidões indiferentes
Ao contrário dos cegos estendendo a mão não o olhar.
Vós que não escreveis cartas
Por não terem mais ninguém no mundo.
Única carta escreveis - a dos suicidas.
Seres sem amor, sem carinho
Só vos pode amar dois seres nunca vistes:
Deus e poeta desconhecidos.
GREVE
Os que sempre sonharam
Paz, felicidade perto de Deus
(Pros pobres morte é rica)...
Os que morreram na porta fábricas
Mancharam com sangue
Caminho pisado pro trabalho
Em sua honra
Somente um minuto de silêncio: das máquinas paradas.
PRONTO SOCORRO
Aqui vêm dar como nas praias
Corpos náufragos do asfalto.
Suicidas - os sem vocação pra vida.
Atropelados -
Os que a velocidade tragou como tragou distâncias.
Vítimas crimes assalto... ouro brilha mais à noite.
Parto inesperado...
Ninguém sabe se bebê que nasce
Chora pela vida ou pela morte.
NATAL
Quantas criancinhas essa noite
Órfãs de pais e de Papai Noel, nunca os verão...
Os dois habitam mundo das lendas!
PROFISSÕES HUMILDES
Limpadores latrinas, chaminés, entranhas animais
Lixeiros, faxineiros de prisões, hospitais, bordéis...
Vosso tato e vossa visão
Tão perto do imundo e feio
Tão longe da beleza.
Como serventes dos museus
Limpando-os madrugadas desertas
Único público insensível
Às obras-primas do mundo.
Ou como limpadores de janelas arranha-céus
Fazendo mais clara a visão dos vidros
Sem nada acrescentarem à própria visão.
RICOS
Festins, joias, liteiras ontem, iates hoje,
Servos, banquetes, luxo, palácio, cortesãs...
Perdoai-lhes, Senhor!
Custa pouco perdoar tão poucos...
Tão poucos foram ricos no planeta.
ENCOSTADOS
Os que repartem
Casa, quarto, pão, mulher, filho.
Solteirona encostada irmão casado.
Operários repartem quarto
Pra não repartirem vida,
O que reparte mulher com amante rico.
Família aluga próprio lar
Pra sobreviver num sótão.
Velho aposentado - sobra da vida -
Vivendo canto que sobra.
Os que trabalham à noite, dormem de dia
Mesma cama
Onde os que trabalham de dia dormem noite.
Recém-casados pobres
Dois comendo prato de um.
Os que doam sangue aos sãos
Entregando filho pra criarem.
Os que vivem encostados uns nos outros
Pra não caírem.
PARADOXOS
Quem chega a ser nunca mais será...
Nada mais dentro mim que eu mesmo e me desconheço.
Nada mais misterioso que céu amplo, tão claro...
Somente um início de imortalidade: morrer.
Nada não é o fim eu, vazio, esquecimento.
Mas sentir imortalidade que almejamos - a dos deuses.
Entender o semelhante sem entender o mundo.
Morte inesperada.
Não sabe porque vive,
Não sabe porque não quer morrer.
Regendo todo o universo a morte é tudo...
A morte é nada.
Nada explica o Nada.
O homem luta para ter.
Quando tem, luta para não perder.
Homens criaram deuses,
Deuses criaram homens.
Felicidade é perfeição...
Nunca seremos felizes.
Um viveu cem anos, outro viveu um ano.
Todos viveram igualmente.
Vencedor é o que não briga.
Mulheres dão à luz.
Outras dão à treva filhos natimortos.
Por que a morte invisível é tão visível?
DEUS
Nenhum homem sabe mais que outro sobre Deus.
As nuvens têm o mesmo céu.
Os mortos têm a mesma religião
Infinito é um deserto, Deus sua miragem...
QUESTÕES INFINITAS
Não há prisão infinita,
Por que nos sentimos presos?
Se tudo é absurdo, incompreensível
Se o espetáculo é trágico,
Por que a todo instante
Mais seres enchem palco Criação?
Injustiça nasce do número. Tudo é um!
Criação, criador, eu, vós, todos irmãos.
Não há realidade e irrealidade.
Ou tudo real ou tudo irreal.
Donde viemos? Aonde vamos? Onde Deus?
Ó pontos de interrogação!
Bengalas de palavras cegas...
Como pudeste ó humanidade heroica
Te conservares lúcida tantos milênios
Sem saber donde vens, a que vens, a onde vais?!
Ó Terra tonta de tanto girar!
Quem pode achar rumo no Infinito?
Mesmo que vejas o jamais visto
Nunca curarás tua cegueira.
Há mais impossível que possível.
Há mais invisível que visível.
Quantos mistérios há?... Maior mistério!
Nossos pés pisam chão finito.
Nossos olhos o Infinito.
Por isso choramos tanto...
REFLEXÕES MORTAIS
Morte, a de mais definições...
Ah tudo morresse ao mesmo tempo!
Planta, fera, homem, planeta.
Morte uniria seres - em vez dor, amor!
Deus seria mais criador.
Natureza, Mãe justa, dissolve eu na morte...
Ninguém suportaria ter consciência do nada.
PENSAMENTOS VITAIS
Vida sempre nos escapa:
Quando a queremos conhecer,
Quando a queremos viver.
Por que só os condenados à morte
Sabem por que morrem?
JUÍZO FINAL
Visto do alto
Mar parece imóvel, uma massa única.
Do Infinito é vista assim a vida humana.
Ninguém sai mais feliz ou infeliz
Deste planeta.
AMOR ESTOICO
- Se ela te deixar?
- Lembrarei tempo fui feliz com ela.
- Se ela for viver com outro?
- Sua felicidade a tive antes dele.
- Se ela morrer?
- Estou vivo para não esquece-la ...
- Se morreres antes dela?
- Terá lágrimas que não molham na memória.
- Se morrerem juntos?
- Saberás há felicidade perfeita.
SÓ VÓS...
Sós vós criancinhas mortas
Continuais crescer no céu.
TESOURO PIRATAS
Te invejo! Ao enterrares tesouro
Deserto escondido, praia remota
Guardaste tua imortalidade num segredo!
Aos mistérios acresceste outro
Humano, feito por ti, teu somente!
Fascínio, riqueza, aventura! ...
Reviverás como Deus enquanto segredo durar!
LEMBRANÇA
Triste qualquer lembrança!
Sabemos o fim de todas cenas ...
Lembrança é solidão!
Vive dentro nós tudo que viveu fora de nós...
Ver o passado extenso
Caber pequenino dentro presente!
PRIMEIRO LAR
Casa pequenina de subúrbio pobre!
Sob teto modesto nossos sonhos voavam
Sobre teto continuavam
Nas pandorgas das crianças pobres ...
Primeiros anos de casados! quantas lutas!
Tu na costura, no fogão!
Quantas noites me esperavas no portão!
Noite que povoa céu de estrelas
E lares, de seus chefes!
Um dia longe no tempo e no espaço
Reveremos, esposa, lar antigo
Habitado então por outros...
Ah nunca saberão
Habitam com eles mesma casa
Tantos seres e sonhos!
FILHO ADOTIVO
Quem foi mais teu pai:
O que te gerou num momento de prazer
Ou o que se sacrificou por ti vida inteira?
O que sempre te teve nos olhos e no coração
Ou o que nunca te adicionou á sua vida?
O que segurando tuas mãozinhas te encaminhou
Ou o que te tirou de seu caminho?
O que te deu primeiro sonho em forma de brinquedo
Ou o que nunca sonhou contigo?
O que adoeceu por ti
- Toda doença filhos contagia pais -
Ou o que nunca sofreu por ti?
O que te levou no colo
Te poupando passos que darás na vida,
Ou o que nunca te ergueu do solo?
A MEU IRMÃO DÉBIL, MUDO, ALEIJADO
Deus que o destino deste vale fada
Achou que só nascer foi muito pouco:
Te fez inútil para um mesmo nada,
Te deu loucura para um mundo louco.
Quem teve olhos e não soube ver,
Quem teve pernas e não pôde andar.
Quem viu próprios pais sem conhecer,
Quem suportou a vida sem falar.
Eu não te invejaria: foste mudo
Tu não gozaste nunca, nem pecaste.
E morrendo, ó irmão, perdeste tudo.
Mas uma inveja, meu irmão, senti:
Não soubeste de Deus, nem perguntaste
Se houve céu ou inferno para ti.
POSSUIR IMAGENS...
Possuir imagens sem as sentir nem as guardar...
Tivesses memória dos espelhos!
Espelho - criador de Sósias...
QUADRO
Lavradores aram campos
Pintor tira melhor colheita.
MAR
Compreendo porque deslumbras alma humana!
Ó face maior do planeta, sendo mais que a terra
Recebes mais brilho, mistério do Infinito!
Ó cemitério de mortos sem visitas
Quem não te inveja movimento eterno?
BODAS DE PRATA
Foi ontem... tu eras bela, eu era belo
Tu eras moça, eu era moço.
Havia entre nós dois um elo
Como o da fruta com o caroço.
Primeiros sonhos... inda os velo!
Palavras de amor... inda as ouço!
Ser a ser, destino paralelo
Como no corpo carne junto ao osso.
Grande, pequeno, negro, alvura
No espaço se igualam, nada dura.
Os anos passam sem passar os anos.
Se no infinito não existe altura,
Se existe amor entre os humanos,
Qual o de Deus com a criatura?
ESTAÇÃO
Árvores se despem pro sono:
Outono.
PLENITUDE
Lua cheia, infinito cheio.
AVAREZA
Dinheiro vai e volta.
Sê avaro do tempo:
Anos não voltam mais.
PANTEÍSMO
A parte se dissolve no todo:
Morto és maior que vivo.
Quem morre nos parece grande e bom.
ENCONTRO DE RUA
- Tu por aqui?... Como vais?... Quantos anos!
Mocidade, esperança, ambições...
- Adeus. - Me apertou a mão. Ou o coração?
JORNAL ANTIGO
9 dezembro 1846.
Política: posse ministros... Quem se lembra deles?
Manchetes importantes primeira página
Hoje importantes como as da última.
"Moda" agitou, vestiu mulheres...
Agora todas despidas.
"Alugam-se, vendem-se casas" em ruas que não existem mais...
Sobre o tempo: choveu...
Chuva e seres que molhou sumiram dentro terra.
Olhos passam secos
Sobre necrológios que arrancaram lágrimas...
Quem a mulher que fugiu com amante?
Drama com somente uma representação...
Ladrão preso... fulano casou com...
Tudo isso viveu! Um dia na História!
Parece nunca ter existido!...
Olhos seguem pegadas das letras no encalço do nada.
UM DIA NO TEATRO...
Um dia no teatro ao ver atores fazerem
Rir a plateia senti porque homem é um ser
Abandonado e só no cosmo. Quem o consola,
Que o diverte, quem o faz rir, quem suaviza
Seu sofrimento? - O próprio homem. Único ser
que representa a si mesmo.
FAZE O BEM...
Faze o bem embora nunca mais voltes
Como estrelas eras remotas encantaram, depois sumiram
Para olhos humanos que também passaram.
Só temos esta paisagem e esta vez.
Nunca mais viveremos unidos.
CRIMINOSOS MUNDO
Assassinos mais perversos planeta
Um dia foram bebês, encantaram o mundo.
POEMA HEDIONDO
Qual limite da maldade humana?
Bebê onze meses estuprado
Morto cabeça esmagada contra parede.
Participei do crime
Pois feito por um semelhante meu.
Criancinha era filho de seu assassino...
Criminoso tão inocente quanto bebê,
Pois ambos filhos de Deus?
Ou crime perdoável por envolver dois irracionais:
Bebê não tinha noção da morte,
Assassino não tinha noção da vida...
Ou daqui bilhões anos-luz
Vítima e réu se igualarão
Quando mal findar com extinção do Homem...
Haverá também o mal entre seres doutras galáxias
Acabando no mesmo nada da eternidade?
PODE ALGUMA COISA
Pode alguma coisa julgar que existiu?
Daqui quatrilhões anos-luz Terra se dissol-
verá numa galáxia morta, se misturará com outras
galáxias formando cosmos novos, morrerão criando
outros universos que findarão criando outros,
mais outros, infinitamente... Orações, ódios, nomes:
menos que grão areia no fundo oceano...
após morte serás ateu.
NOTÍCIA DE JORNAL
"Marquise edifício desabou
sobre fulano, que teve morte estúpida."
Todos morremos estupidamente.
A vida é um sonho, Calderõn?
Morrer é dormir, talvez sonhar, Shakespeare?
A vida:
Que mente pôde inventar tal mistura
De real e irreal ao mesmo tempo?
Ó Deus, se podíeis criar ou não criar,
Somos um capricho, um joguete, um esboço?
CASAL VELHINHOS
Ah quem os vê passos tardos, curvados, olhando chão
Mãos dadas agarrdas se amparando um no outro,
Meio século unidos,
Não lembra suas lágrimas passavam rápidas
Por não esbarrarem nas rugas,
Seus pés lépidos dançaram bailes noivado,
Seu olhar altaneiro contemplou luas românticas,
Dessas bocas murchas
Saíram belas palavras de amor, doces beijos...
AMOR GEOGRÁFICO
Quanto amor em volta do mundo num segundo!
Neste instante alguém abandona amante pra morrer
Outro por causa da amante será morto.
Um se apressa no ato carnal porque ilegal
Outro se demora no amor: despedida terras longe.
Um ama em alcova macia ouvindo música
Alguém ama em escombros sob bombardeios.
Alguém ama para esquecer outrem
Se ama pensando noutro.
Um ama porque deseja filhos
Outro ama: esconderá depois fruto do amor.
Amam á sombra pirâmides (sem saber amor as faz durar)
Inauguram casas com noites de amor.
Muitos insones querem amor, não têm.
Muitos fogem do amor pro sono.
Há quem sai dos braços duma para outra
Há quem será abandonado por quem agora ama.
Há quem ama pra viver, quem ama por bacanal.
Uns amam primeira vez abrindo véu mistério ...
Outros última vez dentro véu de cãs.
E os que lamentaram a prisão do amor?
Criminosos fazendo juras, apertando mãos amadas
Separadas por grades prisão ...
SOLTEIRONAS
Por que Deus umas belas, amadas, outras não?
As que passam sem homens, sem filhos
Amando sem nunca serem amadas...
Depois na velhice solidão dos templos
Amam deuses - outro amor incorrespondido.
BAILARINA
Tornar gestos tão grandes quanto os do perdão!
Sublimar passos obscuros damos pro nada!
IMORTALIDADE
Imortalidade não será um tédio eterno?
Ou será pós-morte o espírito
Viajar sem parar conhecendo o Infinito?
Ou reencarnar sem fim em bilhões seres
Habitam bilhões astros do universo?
Ó HAMLET...
Ó Hamlet! Erraste indagação:
Tanto faz ser ou não-ser, eis a questão.
Ser relógio - marcar indiferente a própria vida.
VOLTA DO EMIGRANTE
Deixar pátria!. Ganhar dinheiro! Ser feliz!
Revê rua, casa onde nasceu vazia.
Mais distantes que lugar para onde emigrou
Emigraram todos parentes mortos...
Ao partir hoje do mesmo cais
Sem parentes, sem adeuses, sem acenos,
Sem votos de ventura e paz,
Se sente mais pobre que na primeira viagem...